“De uma barrica se fez uma cuíca,

de outra barrica um surdo

de marcação”**

 

Por Thomaz Antonio Barbosa*

Quem acha que o carnaval é uma festa de origem brasileira não viu a banda passar.  O problema é que este folguedo se acomodou tão bem ao perfil da raça que esquecemos que o que praticamos tem raízes na Roma antiga, nas festas de Baco, o deus do vinho, dos excessos sexuais e da natureza. Foi incorporado pelas tradições cristãs, passando a ser comemorado em um período de festividades entre o Dia de Reis e a quarta-feira anterior à quaresma.

Como as tradições romanas são oriundas da Grécia, podemos dizer que ele, o carnaval, é grego, remete às orgias dionisíacas. Dionísio no panteão era o deus da ebriedade, da insanidade, do teatro, dos ritos religiosos, dos ciclos vitais, da intoxicação e da luxúria.

Porém, foi durante o Renascimento, na Itália, que surgiu a comédia dell’arte, oriunda dos teatros improvisados nas ruas, onde canções e carros decorados já acompanhavam os desfiles. Nasce como uma alternativa à comédia erudita, com três personagens satíricos, envolvidos em um triângulo amoroso, típico de carnaval mesmo: Pierrô ama Colombina, que ama Arlequim, que é louco por Colombina, que também não se desata de Pierrô.

Um sucesso popular diretamente influenciado pelas brincadeiras carnavalescas que chegou aos nossos dias, que se repete no imaginário dos poetas e na cena popular.

Mas, foi subindo morros e descendo ladeiras que a brincadeira conquistou o Brasil, tomou conta do país a ponto de fazer aquela confusão inicial, de que se trata de uma festa puramente brasileira.  Pode até não ser, mas que tem cheiro e suor da gente, ah, isso tem.

É um processo de apropriação cultural de baixo para cima, quando o pobre imita o rico, e de cima para baixo, quando a burguesia se veste de plebe.

É assim que ele impulsiona uma das maiores paixões nacionais e aguça os nossos sentimentos de brasilidade. Seria uma redundância dizer que aqui o carnaval teve início no período colonial, mas foi.

A palavra vem do latim, carnis levale, que significa tirar a carne, se relaciona com o jejum que deveria ser obedecido durante a quaresma, fato que demonstra um caráter religioso na festividade, apesar de profana; incorpora na figura do jongo e no toque do caxambu o sincretismo, a musicalidade e a dança afrobrasileira.

Foi no período do entrudo que nosso carnaval deu o ar da graça, uma festa de rua portuguesa praticada nos três primeiros dias anteriores à quaresma, absorvida na colônia pelos escravos, primeiramente na cidade do Rio de Janeiro.

O nome daquela brincadeira vinha dos bonecos de madeiras que funcionavam como o abre-alas.  Com o tempo surgiram os cordões e ranchos, os bailes de salão, os blocos e, por fim, a escola de samba, ao ritmo de marchinhas cantadas ao som do batuque, do frevo, do afoxé, por exemplo.

Para consumo interno no Amazonas foram incorporadas as tradições juninas como as pastorinhas, as quadrilhas, as cirandas, as tribos e os bumbás.

Com o declínio dos cordões, dos bailes de salão, o carnaval passou a ser praticado nas ruas, primordialmente sob a forma de desfiles na avenida e em centros de eventos públicos, onde se dá a profissionalização da festa.

Para compreender o que há por trás do espetáculo se faz necessário observar o significado de cada elemento que compõe um desfile, os quesitos que basicamente são julgados durante a passagem de uma escola de samba:

Enredo: é o tema, a trama, as ações da narrativa, é ele quem dá origem à feijoada. Será campeã a escola que melhor o desenvolver no desfile, com criatividade, beleza e graça. O que se avalia é a capacidade de compreensão e transmissão do tema escolhido em forma de espetáculo.

Samba-enredo: é a capacidade de, pela música, se contar a história. O que se avalia é a concisão do texto, a métrica e a melodia. É imprescindível que tenha uma letra assimilável e fácil para que todos os brincantes saibam cantar. É onde começa o contágio e, na hipótese de uma pane no som, os brincantes têm a obrigação de levar no gogó até o final.

Bateria: a responsável pela manutenção harmoniosa e regular da música, da cadência do compasso, em consonância com a letra do samba-enredo.  Os julgadores normalmente observam a perfeita conjugação dos sons e do ritmo, a criatividade e a versatilidade na proposta.

Comissão de frente: entra primeiro na avenida, como componente humano nobre e estiloso que saúda o público e apresenta a escola. É obrigatória sua exibição para os julgadores. Exibe uma coreografia extremamente criativa para expressar a proposta do desfile.

Bateria afinada, escola na avenida, agora é preciso evoluir.

Evolução: significa o samba do pé no chão, a progressão criativa e espontânea da dança de acordo com o ritmo e a cadência da bateria. É riso no rosto e suor no corpo. Espaços irregulares entre alas, desânimo dos brincantes, atrasos, retardos ou correrias são penalizados.

Harmonia: representa o entrosamento entre o ritmo e canto. Avalia o sincronismo do canto dos intérpretes e de todos os participantes, quando também são avaliadas as coreografias. É aqui que a escola levanta a galera ou nada.

Alegoria: é cenário, seu elemento maior, que na avenida aparece sobre rodas; adereços são elementos menores que o compõe, adornos, enfeites, ornamentos que colaboram para tornar a ambientação real, contribuindo para o resultado final da proposta. Nesse quesito se avalia a adequação do visual com o enredo. Será penalizado tudo o que aparecer na alegoria que não esteja relacionado ao tema.

Em carnaval, tudo é fantasia, em sentido direto e figurado.

Fantasia: a roupa, a vestimenta, a imagem do personagem, da escola e do desfile, julgada em todas as alas e itens, exceto as que compõem alegorias. Fantasia fala mais do que a letra do samba.  São observadas sua coerência com o tema, a criatividade, a perfeição do detalhe, a leveza, a elegância, a beleza do brincante e da escola que ela proporciona, o encantamento que causa, sua força no desfile.

Conjunto: neste quesito é visto todo o desfile, sua uniformidade com o enredo que se apresenta, em todas as suas formas de expressão do canto, da dança, da dramaticidade em perfeito equilíbrio artístico e poético.  Porém, apesar de o sacro e o profano andarem de mãos dadas, é proibido o uso de imagens sagradas – guardadas as exceções – nos desfiles de carnaval.

Agora é preparar o corpo e a alma para encarar as folias de momo, uma deusa grega que o carnaval se encarregou de transformar em homem.

Em tempo: enquanto o Judiciário brasileiro brinca de descascar cebola com o Lula e o eleitor joga todo mundo na vala comum, se esquecendo que ele é o maior responsável por tudo o que desgasta o país, o folião, por sua vez, despe a fantasia e vai para a avenida desfilar aquilo que a gente verdadeiramente é.

Viva o Zé Pereira!

** Trecho de “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, de Beto sem Braço e Aloísio Machado, samba-enredo imortal da Império Serrano, de 1982.

 

*O autor é contador, formado em ciências contábeis pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), MBA em marketing pela Universidade Gama Filho e mestrando em ciências empresariais na UFP/Porto, em Portugal.

 

Foto: Reprodução/xilogravura de Airton Marinho/blog Lio Ribeiro