Por Thomaz Antonio Barbosa*

 

“Nas escolas, nas ruas, campos, construções

somos todos soldados, armados ou não”**

 

Existe hoje no Brasil um aforismo de que todo político é corrupto e que o eleitor é a vítima inocente, um pobre enganado do sistema que confiou sua honra e dignidade a um indivíduo nefasto e inescrupuloso, capaz de saquear o ultimo vintém da pátria e seu.

Em cima desse conceito, o eleitor se esquiva do processo, julga, condena e pune dentro de uma ética pessoal que empurra todos para a vala comum, como se, dessa forma, pudesse sacralizar a sua imagem.

Estamos em ano eleitoral, período em que se acirra o debate político e falar do parlamento, excluindo quem o elege, é como vir ao Amazonas e não visitar o encontro das águas dos rios Negro e Solimões.

Apesar das redes sociais estarem cheias de figuras ilibadas e suas postagens santas, não podemos esquecer que um é cria do outro.

Exatamente, a culpa pelos políticos que temos é dos eleitores que somos. A vala comum que cabe um comporta os dois. É o livre arbítrio que tem enchido o inferno de almas inocentes.

Essa invenção eclesiástica é responsável pelo surgimento de uma grandeza  que vai nortear o povo brasileiro durante o processo de escolha de nossos representantes, proclamada na forma de sua ética pessoal.

Dela surge o “malvado favorito” e os jargões do tipo “rouba, mas faz”; é quem vai acalantar os coxinhas e os mortadelas, os bolsomitos, os petralhas, as tietes de siglas partidárias que avaliam o momento que vivemos com uma partida de futebol. Torcem, se embebedam e jogam o país novamente em um mar de lama, exatamente no momento em que deveriam tirá-lo.

O Brasil perde quando se nivela assim. Não seria chamar a ex-presidente de anta – por mais que seja – a forma correta de se mudar um país. Publicar memes do tipo “Luladrão” ou “desgoverno Temerário” não vai tirar a gente do limbo.

Caímos na retroalimentação da safadeza. No ano passado, o clamor por mudanças ganhou às ruas, mas agora já vemos o sorriso pálido do senso comum empunhando suas bandeiras, correndo atrás dos seus iguais, fazendo as velhas composições com os “mais do mesmo”. No final das contas, os novos serão os de sempre.

A corrupção no Brasil é patológica. Estamos jogando a responsabilidade de mudanças para o Judiciário quando, na realidade, ela virá das “escolas, das ruas, campos, construções”.

O Congresso Nacional vota aberto, o eleitor vota secreto, talvez seja este o início da patifaria. Hoje, em plena era digital, longe do voto de cabresto, bem que poderíamos começar a pensar em mudar essa modalidade de voto secreto.

Assim, a gente ia saber em que votam os intelectuais de plantão; aquele professor que vai para escola discursar ao invés de dar aula. Veríamos como votam os sociólogos, os filósofos, os poetas, os “não alienados” e os gurus da sociedade.

De duas coisas temos certeza: a primeira é que aqueles que dizem votar em homens de bem, mentem. Os que enchem as universidades, os sindicatos, as paróquias, nos ensinando a escolher os melhores representantes, votam errado, são cúmplices da sujeira toda. Do contrario, ela não existiria.

A segunda é que a turma do gargarejo assumidamente dos palanques de Lula e Bolsonaro, no próximo ano, eles ganhando ou perdendo, estará se esquivando no mais absurdo lugar comum, nas redes sociais, nessa canalhice de que ‘a culpa é dos políticos’.

Aliás, Lula e Bolsonaro estão no mesmo habitat: exterminada a presa, o predador morre de inanição.

Na democracia, o parlamentar não é obrigado a votar exatamente como pensa o eleitor, na sua ética ou no senso comum das redes sociais.

A procuração que lhe outorgamos não é vinculada aos nossos desejos, bem como o eleitor em suas escolhas. A busca do voto e do mandato não pode ser a função em si de um homem público honrado.

Falando do nosso umbigo, nessas questões façamos justiça a Vanessa Grazziotin e Pauderney Avelino, por exemplo, que assumem posições. Por mais que não agradem, se mostram, não fogem ao debate, nem entram nessa mediocridade de jogar com a plateia.

Nessa seara está Randolfe, Paulo Paim, Chico Alencar, o Jereissati e uma gama de parlamentares considerados indigestos para seus antagônicos, porém, com posições bem definidas.

Coerência, por mais que não seja a minha, ou aquilo que considero correto, tem que ser vista como um sinal de transparência. Essa é a grandeza que substancia o julgamento das urnas, onde o eleitor é livre para votar em quem melhor considera para representá-lo, sem nenhuma obrigação com ninguém, senão com sua consciência e a sociedade.

Dessa forma, ninguém está livre da culpa, Temer e Lula não são corruptos sozinhos. O momento é de introspecção e não de linchamentos. Porém, ganhar a partida com gol roubado no último minuto é uma delícia, uma proeza; perder é uma safadeza, a torcida sai no pau, quebra o estádio. Subornar o guarda de trânsito é uma esperteza condecorável, pois o jeitinho brasileiro cai bem em todas as ocasiões quando nos favorece. É cultural o levar vantagem; levemos nós, então.

Visto assim parece que ético é aquilo que me beneficia, do contrário é babaquice. A ética pessoal no Brasil é nociva por ser auto-excludente do julgamento.

Em um tempo atrás, ainda garoto, eu caí em uma blitz de trânsito sem a licença do veículo. Deixei o carro detido e voltei para casa em busca da documentação. Meu vizinho, um ser de conduta reta, motorista antigo, que execra a corrupção política desde sempre, me disse: “Você é um cara esclarecido. Por que não deu o guaraná do guarda?”.

Eu não o fiz exatamente por ser esclarecido, suponho. Ele replicou, dizendo: “Todos fazem, tu não seria o único”.

Naquela circunstância era melhor pagar uma de otário do que explicar o que é obrigação acessória. E olha que ele se vangloria por ser um homem correto, daqueles do “fora Dilma, fora Temer”.

Partindo desse ponto de vista, o que dizer então de Maluf sobre a resposta “é minha, mas não é minha” e também do sítio de Atibaia que era meu, mas não era meu?

O que poderíamos acrescentar sobre esse conjunto de valores que determina a forma de pensar e de agir do indivíduo em relação ao ambiente, à família, ao trabalho, ao mundo e às pessoas à sua volta?

O que dizer de nós mesmos? Como disse, o momento é de introspecção e não de linchamento, se não a vala cabe todos.

Passado o carnaval vem a quaresma e, nela, quem nunca pecou que atire a primeira pedra.  É hora de agir!

Decifra-me se for capaz!

 

*O autor é contador, formado em ciências contábeis pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), MBA em marketing pela Universidade Gama Filho e mestrando em ciências empresariais na UFP/Porto, em Portugal.

**Geraldo Vandré, trecho da música “Para não dizer que não falei das flores”

 

Ilustração: Reprodução/internet_avozdavitoria.com