O ex-deputado estadual Walzenir Falcão era quem comandava o esquema que desviou recursos públicos de mais de R$ 5 milhões de convênios da Federação de Pescadores do Amazonas e Roraima (Fepesca), da qual é presidente, com o Governo do Estado, via Secretaria de Trabalho (Setrab), entre 2012 e 2014.

Walzenir usou sua influência política para obter os recursos e montar uma rede de corrupção com mais nove pessoas que pode ter atuado também no financiamento de campanhas políticas no interior do Amazonas na eleição de 2012.

Essa suspeita de crime eleitoral ainda está sendo investigada pelo Ministério Público do Amazonas (MP-AM), que por enquanto tem certeza que Walzenir e seu grupo cometeram os crimes de falsidade ideológica e mais de 60 atos de lavagem de dinheiro público usando empresas fictícias e de fachada e pessoas “laranjas” e “fantasmas”.

Para o promotor de Justiça Alessandro Samartin, o ex-deputado e presidente da Fepesca comandava tudo, desde as tratativas para os convênios até a distribuição dos valores sacados em banco.

“Muitos até temiam Walzenir, que comandava tudo. As operações bancárias mostraram que ele decidia tudo”, disse o promotor.

Todas essas situações, o modus operandis do grupo, o papel de cada um dos dez suspeitos, integram a denúncia que o MP-AM fez à Justiça neste dia 7, com pedido de prisão preventiva de Walzenir e mais três participantes do esquema. A base da denúncia é a operação Traíra, deflagrada em dezembro do ano passado.

A prisão não foi deferida, conforme detalhou hoje o coordenador do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), Mauro Veras, e Samartin.

Como esta denúncia é apenas parte do que está sendo investigado, o Gaeco não descarta que novo pedido venha a ser feito caso encontre outros indícios de crimes nas investigações que prosseguem.

Samartin afirmou que há suspeitas de que o grupo também esteja envolvido em peculato (crime de funcionário público contra a própria administração) e organização criminosa.

 

Rápidos no saque

Em apenas seis meses, de 2 de outubro de 2012 a 16 de abril de 2013, Walzenir e seus aliados receberam da Setrab e sacaram na boca do caixa R$ 3 milhões em espécie, em três operações bancárias.

Os investigadores identificaram que o grupo tinha pressa em sacar o dinheiro tão logo caía na conta. No primeiro milhão depositado, em 2 de outubro, o valor foi integralmente retirado do banco e rateado entre os participantes do esquema nos dois dias seguintes.

Walzenir, deputado estadual de 2006 a 2009, que não se reelegeu em 2010 porque a Justiça Eleitoral barrou sua candidatura, por irregularidades em prestação de contas, tinha interesse de eleger em 2012 candidatos da federação no interior do Amazonas, segundo o MP.

O ministério não quis ser taxativo em afirmar se esse dinheiro foi usado como caixa 2 na eleição, mas é suspeita que está se investigando e que pode ser alvo de denúncia futura.

Causou estranheza nas investigações que um dos repasses de R$ 1 milhão à Fepesca tenha saído do orçamento da Secretaria de Saúde (Susam). Afinal, o convênio era com a área de trabalho do governo. Sobre isso o MP apura junto à Secretaria de Fazenda (Sefaz).

 

Nem a cor

A denúncia afirma que os mais de R$ 5 milhões repassados pelo governo nos convênios até aqui analisados, que se destinavam para cursos de qualificação aos membros da Fepesca, nunca chegaram aos pescadores nos municípios.

E muitos deles, entre os quase 5 mil que foram incluídos nas listas falsificadas de alunos, morreram sem que o benefício os alcançasse porque não saiu das mãos dos participantes do esquema em Manaus, segundo denuncia o ministério.

 

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