Como artistas parintinenses usam no boi o aprendizado nas universidades

Saídos dos cursos de artes de Ufam e UEA, parintinenses mostram que sabem bem o que produzem

Artistas parintinenses usam aprendizado da univerisade

Arnoldo Santos, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 10/06/2022 às 16:33 | Atualizado em: 10/06/2022 às 16:33

Como um artista que saiu dos meios universitários usa a formação acadêmica nas suas criações? O educador Paulo Freire, ao falar de sua pedagogia do oprimido, disse que a educação não levará à libertação se não for pela combinação do conhecimento com a prática.

“Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis (prática) de sua busca; pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela”, escreveu Freire.

Em Parintins, enquanto a cidade se prepara para a 55ª edição do seu festival folclórico, jovens artistas estão usando o aprendizado nas universidades, combinado com o talento nato de produzir arte, para falar de sua própria cultura de maneira diferente.

Essa prática está materializada na pintura da fachada do bumbódromo de Parintins, onde os bois-bumbás Caprichoso e Garantido farão o espetáculo de três noites. Os artistas são os parintinenses Alziney Pereira e Kemerson Freitas, que assinam como dupla, batizada de os curumiz.

Egressos da Ufam e mestrando da UEA

Kemerson vem do curso de artes visuais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e, hoje, é mestrando do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Alziney está cursando artes visuais, também na Ufam. As duas graduações foram cursadas nos campus da Ufam e UEA, de Parintins.

Ainda muito ligados aos ensinamentos acadêmicos, os artistas falam do quanto a ciência influenciou o modo de produzir arte dos dois.

“A gente já pensa a cultura amazônica pelo olhar de quem mora aqui. Não daquela forma que era trabalhada pelas belas artes, pela influência europeia. A gente pensa a Amazônia de uma forma mais decolonial”, diz Kemerson.

O artista cita a teoria da decolonialidade, uma forma de pensamento difundida, em particular, na América Latina que pensa o homem do ponto de vista de sua cultura original, sem as imposições do pensamento do “homem branco” que chegou ao continente há 500 anos e padronizou as diversas culturas em uma só, chamando todo o indivíduo de “índio”, uniformizando o que já era profundamente diferente, em diversos aspectos.

Kemerson confirma a mudança pela qual passou quando entrou na Universidade. “Autores como Viveiros de Castro, Paes Loureiro, são autores que influenciam a nossa produção artística e do que a gente quer tá falando”, diz o futuro mestre em ciências humanas citando o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiro de Castro e o sociólogo João de Jesus Paes Loureiro,  poeta, prosador e ensaísta, autor da tese Cultura amazônica: uma poética do imaginário.

A obra do bumbódromo

A pintura que os curumiz estão finalizando no bumbódromo apresenta personagens dos bois-bumbás, mas já é possível ver que a representação desses vai além de uma simples reprodução visual do boi de pano, da figura indígena e do brincante não-indígena. Mas os traços diferentes têm origem definida: a formação acadêmica. Alziney Pereira reconhece o efeito da sala de aula na sua produção artística.

“A partir daí (da entrada na faculdade), tivemos outros pensamentos de como fazer arte, de absorver referências históricas e culturais. Tivemos a ideia de fazer o grafite de forma mais contemporânea pra cidade. Isso abriu um leque de oportunidades de fazer trabalhos fora de Parintins. Eu absorvi o conteúdo teórico como uma forma de agregar à minha particularidade artística”, afirma Alziney.

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Os novos ‘curumiz’

Azliney e Kemmerson chamaram para ajudá-los artistas auxiliares Teo Onda e André Hulk, dois nomes conhecidos no circuito do grafite em Manaus. Eles também demonstram olhares tecnicamente fundados.

Teo, que é parintinense de nascimento, diz que escolheu biologia como segunda opção de curso superior. Mas descobriu uma área que pode usar perfeitamente o seu talento artístico.

“Dentro da ciência, eu não sabia que existia uma área chamada ilustração científica, que é uma área que trabalha a arte dentro da ciência. Quando eu vi aquilo, eu pensei: é isso”, afirma Teo Onda que tem um trabalho muito original de desenho com canetas esferográficas.

André Hulk (foto abaixo) não esconde a alegria de estar assinando o trabalho junto dos curumiz. E louva o reconhecimento da força da arte do grafite que vai estar simbolizada na pintura gigante na fachada principal do bumbódromo.

“Esse painel tem uma importância muito grande para todos nós artistas (autores da obra) em ver a arte mudando o visual do bumbódromo. A gente agradece o apoio de toda a galera que tá por trás do trabalho”, finaliza Hulk.

Projeto geral

A pintura da frente do bumbódromo faz parte do projeto geral de revitalização da arena de apresentações do Festival Folclórico de Parintins. Realizado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado, o projeto envolve cerca de 90 artistas de Parintins que fizeram dos muros do bumbódromo uma galera à céu aberto.

Cada artista ganhou um espaço e isso fez com que a exposição permanente simbolize uma diversidade de traços e estilos indiscutível. Os trabalhos envolvem técnicas que envolvem do grafite à modelagem com cimento em três dimensões.

A pintura gigante junto das demais criações deverão ser inauguradas no dia 18 de junho.

Universidades em Parintins

A Ufam criou Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia em 2007. Hoje, conta com cursos de graduação em Administração, Artes Plásticas, Comunicação Social/Jornalismo, Educação Física, Pedagogia, Serviço Social e Zootecnia. O número de estudantes segue uma média de 2 mil alunos de graduação.

A UEA mantém o Centro de Estudos Superiores de Parintins desde fevereiro de 2001. Atualmente, são oferecidos 9 cursos de licenciatura, 8 de bacharelado e 4 cursos tecnológicos.

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