Meio-banho
Publicado em: 03/10/2011 às 00:00 | Atualizado em: 03/10/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Seu Francisco foi ao jirau da cozinha que fica em frente à casa dele, a poucos metros da rua, pegou uma lata (suponho que era uma lata de manteiga, daquelas de 20 litros), derramou um pouco de água numa vasilha menor e colocou-a sobre um banquinho de madeira debaixo da torneira, cujo bico já estava vedado com teias de aranha e tudo mais, menos água potável.
A cena era acompanhada pelo ex-governador (recém-saído do cargo), que estava no bairro em campanha para o Senado. A observação era mais pelo estranhamento do que pela curiosidade. Não entendia por que a reunião que promovia atraía tanta gente, só não seu Francisco, que, depois de deixar a panelinha sob a torneira, voltava para mais um gole do copo de cerveja, emparelhada à cadeira de embalo.
Quando percebeu que seu Francisco voltou a se sentar e, convencido de que ali estava um voto perdido, o político tornou a conversar com aqueles que lhe davam atenção, mas não deixava de olhar de canto de olho para o eleitor da outra esquina.
Eu gostaria de ter sido testemunha do episódio para fazer esta “contação” sem atravessador, mas o narrador da história descrevia detalhes tão preciosos que pareceria ter ido à reunião apenas para observar a preocupação do candidato e o desdém de seu Francisco. Era tão fecundo na descrição que conseguiu captar do olhar escanteado do candidato à teia de aranha no bico da torneira.
O narrador chama-se Roberto, trabalhou naquela campanha e foi o organizador da reunião. Encontrei-me com ele há duas semanas, no aeroporto de Manaus:
– Vai para onde?
– Pra casa.
– De ônibus?
– Sim.
– Duvido.
Em meio a essa dúvida, combinamos embarcar a esmo no primeiro ônibus que passasse por ali, e, mal fechamos a boca, o 306 apareceu, lotado, em direção ao bairro. E foi nessa direção, à altura do bairro Campos Sales, que ele me contou a história de seu Francisco.
O relato foi uma resposta do Roberto a um dado curioso que eu observava pela janela do busão na direção dos quintais daquelas casas: a preocupação dos moradores em armazenar água. Tudo eles improvisam como depósito: garrafas PETs, latas, baldes, panelas, bacias, tanques de combustíveis, banheiras de bebê. Enfim, tudo!
Foi aí que ele disse:
– Vamos parar aqui, que eu vou te mostrar uma coisa. E paramos numa esquina, em frente a uma panificadora e a uma casa de varanda ampla, onde provavelmente funciona uma igreja evangélica ou é o centro social da comunidade:
“O governador (ainda hoje é assim que ele chama o chefe) estava sentado ali naquela mesa atendendo as pessoas (apontou para a varanda). Aí, de repente, ele olhou para o outro lado da rua e viu aquele homem naquela marmota”.
Como? – perguntei e ele continuou.
“Seu Francisco pegou a panelinha que estava debaixo da torneira, segurou-a com o lado da mão esquerda e, com a direita, meteu a mão n’água, massageou um pedaço de sabão na mão direita e lavou os sovacos; depois, lavou o pescoço; em seguida, o rosto; e o resto que sobrou de água ele molhou a cabeça”.
Rindo da cena, acabei interrompendo a narração, mas ele logo continuou:
“Rapaz, o governador não se segurou, parou o discurso que fazia e perguntou ao povo que banho era aquele. Aí, uma voz da multidão explicou:
– Não é só ele que toma banho assim, não. Aqui não tem água encanada. Então, a gente tem que tomar meio-banho: da cintura para cima, de dia, e meio-banho, à noite, da cintura para baixo.
E “governador” perguntou:
– Por quê?
Aí veio a explicação, com uma pergunta:
– Como o senhor prefere namorar à noite? Limpo da cintura pra cima ou limpo da cintura pra baixo?”
*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
