O tesouro da prima

Publicado em: 08/01/2011 às 00:00 | Atualizado em: 08/01/2011 às 00:00

Neuton Corrêa*

Deitado na rede, atada do esteio da porta para o esteio da janela, fechando o triângulo da cantoneira da sala de paredes de taipa da casa do tio Zé, no lago do Miriti, acompanhava imóvel a movimentação externa que me fizera acordar. Tentava compreender o que se passava, mas o que ouvia servia apenas para me deixar ainda mais enrolado no lençol, com as mãos descansadas sobre o peito, com os dedos entrelaçados, fingindo-me de morto.

O silêncio rural fazia meu coração barulhar como um tambor apanhando em festa. O breu da sala era mais negro do que a escuridão que encobria o terreiro onde as coisas se passavam. Não tinha ideia de como a noite estava, até porque eu era apenas um curumim da segunda série do antigo primário. Mas a escuridão era tanta que pensei que o Sol havia se esquecido de acender as luzes das estrelas antes de descansar. A única coisa que podia fazer era aguçar a audição. E isso me fez ouvir os sussurros: “pega o ferro-de-cova”, “pega a enxada”, “pega o terçado”.

Instantes depois, ouço o tilintar de ferramentas se tocando e, em seguida, uma terceira voz sussurrando: “Não faz baruuuuulho”.

Não sei nem tenho ideia da hora que isso se passou, mas, naquele tempo, sete da noite, para mim, já era noite adentro, porque, assim que o Sol se punha, eu já estava no pano. Só dava tempo de ouvir o começo da Voz do Brasil.

Eu estava assustado. O dia que precedera àquela noite fora marcado por olhares desconfiados de minha avó Mariquinha, do meu tio Zé, da minha tia Mei, e da minha prima Cilica, que foi recebida por eles com tapetes vermelhos.

Aliás, é por causa da Cilica que vos conto este episódio. Cilica é minha prima mais velha. Em sua juventude, parava o trânsito, principalmente quando deixava expostas suas longas morenas pernas torneadas encobertas com pelos dourados. Pois bem, lembrei-me dela porque, sem querer, juro que foi sem querer, bati o olhar na perna de uma passageira do 458 que me fez viajar no tempo. Esquece!

Sim, paramos na recepção à Cilica.

Então, a prima tinha um sonho recorrente. Sonhava que era herdeira de um tesouro enterrado de valor incalculável e que teria que aceitá-lo para que seus antigos donos pudessem descansar em paz. Havia recebido todas as orientações, e o primeiro sinal de que os sonhos eram reais seria dado naquela noite: a entrega da fortuna ocorreria na noite mais escura do ano.

Cilica, vovó Mariquinha e o tio Zé, que se julgava o mais cético morador do Miriti, saíram com pás, ferro-de-cova e enxada para desenterrar o pote de ouro, como eles revelariam depois. Tudo coincidia. No local onde seria feita a doação da herança, o mato balançaria com um pequeno redemoinho. Lá, eles podiam cavar que, dois palmos depois, encontrariam o pote. E assim aconteceu.

Mas, senhores, quando meus parentes, começaram a se apossar do tesouro, eis que dona Mariquinha, grita: “Lá vem gente de canoa!” E todo mundo saiu correndo de volta para casa. E, de novo, fui acordado com as explicações da prima:

– Esqueci de falar pra vocês: esse era o último sinal. Quando a gente tocasse no pote, apareceria um homem vindo de canoa para entregar o pote de ouro.

Depois de pensar nas histórias da Cilica, deixei de olhar para as pernas douradas da passageira.

P.S.: Dona Dulcinda, 88, citada na crônica “A despedida da Pátria” (4/12/2010), morreu na última quarta-feira, 15. Ela era irmã de Dona Pátria, 86, personagem homenageada por esta coluna que faleceu no dia 28 novembro.

*Jornalista, filósofo e escritor.

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