Lucas e Daiane

Publicado em: 24/07/2009 às 00:00 | Atualizado em: 24/07/2009 às 00:00


Neuton Corrêa*

O anúncio de Lucas me fez lembrar Daiane, que não conheci.

Lembrei de Daiane, porque o anúncio de Lucas tem me acompanhado nas últimas semanas. Em qualquer ônibus que entro, lá está, no vidro da cabine do motorista, o cartaz grudado. Ao centro, a foto dele; abaixo, vários números de telefones; acima, em letras graúdas, a palavra “DESAPARECIDO”.

Desde Daiane, havia prometido a mim mesmo que nunca mais escreveria casos desse tipo. Afinal, nos anos que se passaram, até onde acompanhei a história dela, não consigo vê-la de volta com os pães na mão, como um dia sonhei.

Mas, perseguido pelas buscas a Lucas, não resisti e, como quem tira a sorte, escolhi um daqueles números do anúncio e anotei em um pedaço de papel, com a intenção de perdê-lo, porém foi em vão.

Ontem, no entanto, ao revirar minhas coisas, encontrei o papel e não perdi tempo. No primeiro toque, alguém atendeu à chamada. Pergunto quem estava falando e a pessoa diz: “É mãe do Lucas”. A resposta e a presteza diziam tudo.

Dona Lindinalva, há quatro meses, aguarda o filho voltar para casa suado, queimado do sol e com o papagaio de papel pendurado nos dedos. Era isso que o rapaz de 17 anos fazia quando foi visto pela última vez na tarde do dia 1º de março de 2009, no Boulevard Álvaro Maio. “Ele era meu companheiro, meu amigo. Me ajude! Por favor, estou sofrendo!”

O apelo da mãe de Lucas fez rodar em minha cabeça o drama de Daiane, que nunca se apagará de minhas lembranças. Daiane saiu meio-dia para comprar pão para o almoço e não voltou mais para casa. Nem se despediu dos três irmãos pequenos dos quais tomava conta. Estava adolescente, mas a inseparável boneca e o corpo miúdo ainda a faziam criança.

Conheci sua a história por acaso. Subia para a redação, quando fui abordado por um homem baixinho e franzino na portaria do jornal onde trabalhava. Ele queria anunciar nos classificados o desaparecimento de sua filha. Disse a ele, porém, que o assunto despertava interesse jornalístico e me prontifiquei a sugerir a pauta e a fazer a matéria. E assim aconteceu.

Além do sumiço da filha, outra coisa angustiava o pai: a pergunta que passou a ouvir do filho de cinco anos todo dia. “Papai, cadê a mana?”, contou-me ele, com os olhos embaçados nos raros momentos em que deixava escapar a dor de sua alma.

Na busca por Daiane, refiz com ele o caminho que passou a percorrer de sol a sol desde que a menina desapareceu. Estava tão conhecido que por onde passava as pessoas gritavam: “E aí, encontrou?”. Ele sempre respondia: “Vou encontrar”. E foi assim nas cinco horas que acompanhei sua busca solitária.

Depois disso, retornei à casa dele para conhecer onde Daiane vivia, no bairro Nova Floresta. Tão logo escalamos o barranco onde moravam, um menino correu em nossa direção e choramingou: “Cadê a mana, pai. O senhor achou? Ela vai voltar?”. A resposta veio com desespero e lágrimas. Ninguém se conteve. E eu, até hoje, cinco anos depois, não consigo esquecer Daiane, que nem foto tinha.

PS: Quem tiver alguma informação do Lucas Nogueira, de 17 anos de idade, pode ligar para o telefone 3232-3224.

*Filósofo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia.

Ilustração: Heli.

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