O terrorismo de Alan Garcia

Publicado em: 17/06/2009 às 00:00 | Atualizado em: 17/06/2009 às 00:00


Wilson Nogueira*

O presidente do Peru, Alan Garcia, segue à risca a mofenta cartilha do clã Bush. Ele quer que a sociedade peruana e a comunidade internacional acreditem na versão de que o Estado peruano massacrou terroristas em vez de índios em campanha pela demarcação das terras em que vivem há milênios. Caso dependesse de Garcia, a região de Bagua, na selva amazônica, seria incluída no “eixo do mal”. Na tragédia, ocorrida no último dia 5, morreram dezenas de índios e policiais.

Em termos de perigo planetário, Bagua teria, para Garcia, o mesmo status da Coreia do Norte e do Irã, países que possuem instalações nucleares sem fiscalização da Organização das Nações Unidas (ONU). Observa-se que quem faz terrorismo é o próprio presidente, que joga os povos indígenas contra os demais segmentos sociais peruanos. Ao injetar medo na sociedade, Garcia visa, também, esconder os interesses das medidas desastrosas que resultaram no massacre.

A imprensa revela que o governo peruano não fez a demarcação plena das terras indígenas porque elas são cobiçadas por companhias multinacionais de petróleo, de produção de energia elétrica e de outros minérios. Tais multis se sentem donas da selva por conta do Tratado de Livre Comércio (TCL) entre o Peru e os Estados Unidos. É de domínio público que Garcia agiu de má-fé ou foi imprudente e irresponsável ao mobilizar tropas militares para Bagua sem a mínima experiência em tensão social envolvendo povos indígenas. O diálogo, pelo visto, não interessava ao governo de Alan Garcia.

Lembrou-me uma leitora que a violência contra índios e camponeses é da índole desse político quando está no controle do poder. “Até hoje no Peru são desenterrados centenas de corpos de camponeses assassinados pelo exército durante o primeiro período do governo de Alan García (1985-90). Faz-se o mesmo com os nossos irmãos falecidos da Amazônia. Precisamos de observadores internacionais para não esconder a realidade do que aconteceu”, comentou.

Muito bem lembrado. É importante que a comunidade internacional não faça vista grossa a esse massacre. Cabe-lhe, por meio de ongs, governos e instituições multilaterais, pressionar o Estado peruano para que assegure uma investigação isenta e eficaz sobre o caso, com o acompanhamento das organizações de defesa dos direitos humanos e da causa indígena. Um procedimento dessa envergadura poderá apontar os responsáveis pelo crime, para que sejam julgados e punidos exemplarmente, conforme exigem a democracia e a justiça.

A impunidade só fortalece as ações e a retórica terrorista do presidente Alan Garcia, que faz o jogo do capitalismo de terra arrasada. Está em curso hoje, como resistência e alternativa à globalização antiecológica e causadora do aquecimento global, uma nova compreensão de desenvolvimento, na qual se inclui a experiência dos índios e demais povos amazônicos que manejam os recursos naturais com ínfima agressão ambiental. É dessa experiência que o Planeta necessita. É dela que Garcia quer se livrar.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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