O apelo de Silvinha
Publicado em: 16/06/2009 às 00:00 | Atualizado em: 16/06/2009 às 00:00
Embarquei e assim que passei pela catraca ouvi um grito: “Repórter do ônibus, por favor, me ajude!”. A primeira reação que tive foi descer imediatamente da viagem. Afinal, alguém ali acabara de revelar minha identidade secreta de passageiro-repórter. No entanto, o clamor ficou mais sério, e eu ainda mais preocupado.
Resolvo olhar na direção de onde saía o apelo, mas as lâmpadas do 045 estavam apagadas. Tento identificar a pessoa. Não consigo. Olho outra vez. E nada. Fecho um pouco os olhos como quem mira alguma coisa, vejo uma mulher se levantar e ouço de novo: “Repórter do ônibus!”.
Perto de mim, ao abrir a boca pela terceira vez, senti a pele reagir como num frio de malária. Não dava para controlar o tremor que a voz me provocava. Era uma voz fina e desafinava e entrecortada por um soluço penetrante. Mais penetrante foi quando vi seus olhos transbordando água por várzea e terra firme.
A um palmo de mim a reconheci. Mas não pude lhe dizer nada, pois assim que se aproximou ela me deu abraço forte e suspirou no meu ouvido: “Ainda bem que você apareceu aqui”. Encabulado diante dos outros passageiros, perguntei o porquê e ela respondeu: “Acabei de ser assaltada duas vezes”.
Não poderia deixar de achar que aquilo era um exagero. Mas exagero não combinava com sua história, com a história da Silvinha que conheci no beco Paris, perto da usina de energia elétrica, e com quem estudei vários anos.
A Silvinha, nas primeiras séries, não abria a boca para nada. Entrava no corredor do Ryota Yoama se arrastando de costa na parede. Chegava assim na sala e ficava as quatro horas da manhã imóvel em sua carteira. A menina do primário não era diferente da que voltei a encontrar no magistério anos mais tarde.
Quando a reencontrei, porém, no segundo grau, em 1991, ela já era mãe pela terceira vez. Teve a primeira criança com 15 anos; a segunda, com 17; e a caçula aos 20 anos de idade. A terceira menina ainda vi crescer na barriga da Sílvia. O pai… Bem… O pai era um homem casado que veio assumir a segunda família só recentemente.
Havia pelo menos 15 anos que não via a Silvinha. Em Manaus, há cinco anos virou cobradora de ônibus. A última lembrança que tinha dela era do tempo em que era magrinha. Passeava de bicicleta com a filha em uma cadeirinha de ferro trançada de macarrão de borracha. Hoje, a menina está com 18 anos e no primeiro período do Curso de Pedagogia mantido pela mãe.
Pois era a universidade que mais fazia a Silvinha chorar naquela noite. Depois que me abraçou foi isso que repetiu não sei quantas vezes: “E agora, como vou pagar a faculdade da minha filha?”. Insistia no assunto sem se importar com os ferimentos que trazia no braço, até lhe perguntar o que era aquilo. E ela respondeu:
– Acabei de ser assaltada. E sei que vou ser assaltada de novo.
Sinceramente, fiquei sem entender e indaguei:
– Como assim?
– O ladrão entrou no ônibus, pediu toda a renda da viagem. Aí eu disse que não ia dar nada e olha o que ele me fez. (Relatou mostrando ferimentos no braço direito e à altura do ombro esquerdo).
– Você correu risco de vida, disse-lhe.
– É, mas eu não tenho mais dinheiro para ser assaltada. No início do ano, os ladrões entraram no ônibus e levaram mais de R$ 100 da minha viagem. Semana passada, mais R$ 50.
Depois disso, pedi que ela comparasse o valor do dinheiro com o valor de sua vida. E ela devolveu o problema:
– E a faculdade da minha filha, como fica?
A conversa, para mim, ficou sem rumo. Pedi que explicasse. Ela engoliu o soluço, enxugou os olhos e falou:
– Toda vez que acontece um assalto no ônibus somos assaltadas duas vez. Primeiro pelo ladrão, depois pelas empresas, que tiram o valor do assalto do nosso salário. Como não tenho mais dinheiro, resolvi enfrentar a sorte.
O ônibus parou onde desceria e desci, prometendo-lhe escrever alguma coisa sobre o assunto.
*Filósofo, estudante de jornalismo, mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia.
Ilustração: Carlos Myrria.
