“A minha resposta é uma só: como construção de história de memória, é tudo uma questão de poder”
Publicado em: 23/03/2009 às 00:00 | Atualizado em: 23/03/2009 às 00:00

Em outubro do ano passado, ela fez conferência em Manaus, no 2.º Seminário Cultura Popular, Patrimônio Imaterial e Cidades (15, 16 e 17), promovido pelo Departamento de Antropologia da Ufam, sob a coordenação do Professor Doutor Sérgio Ivan Gil Braga. Maria Lúcia explica que a história não tem como recurso apenas documentos e que diversas sociedades, principalmente as tradicionais, se utilizam da memória, da dança e do canto para elaborar a sua história.
Nas sociedades ditas modernas, a prática de se transmitir a tradição por meio da oralidade fica mais difícil em razão da enxurrada de informações dos meios de comunicação. É nesse ambiente que, segundo ela, não só os brasileiros, mas o mundo, fica cada vez mais com a memória curta. Confira a entrevista que ela concedeu ao jornalista Wilson Nogueira.
Há diferença entre o conceito de memória e historia?
A noção de história tradicional que a gente tem (que eu questiono em função do meu campo de trabalho) lida com memória negra. Eu estava dizendo (ela se refere à palestra que ministrou) que o documento não é a única coisa que legitima a memória, porque o documento é o lado escrito. Ele é, como diz o africano, a fotografia da coisa; o saber é outra coisa. Isto é: estou falando em nome de uma concepção de história, que é tradicional na África: a história que é contada pelo criô. Quer dizer: são sociedades sem escrita, onde a memória é a história.
Portanto, você utiliza todos os recursos mnemônicos possíveis. Então, você conta a história do teu povo acompanhada de música, de dança. A história é quase como se você quisesse fazer um rememorar permanente da narrativa da história feita no contato face a face. Então o que está em jogo, realmente, é uma recuperação de um tempo passado, mas que te inscreve no presente como parte dele.
No fim das contas, o que eu estava tentando questionar era a nossa versão de história como um relato do tempo passado, que você tem métodos científicos para documentar, e aí você analisa em função de várias questões teóricas etc. Isso não é a experiência de história de outros povos. O que está presente nesse país é a liderança africana desse universo do qual eu estou trabalhando.
Portanto, eu estava dizendo: a construção dessa memória, o resgate deste patrimônio imaterial dessa memória é a construção de outra história, que é uma história subalterna, uma história invisível. Na maior metrópole brasileira, vou descobrir uma historia do negro que só posso alcançar através do estranhamento da memória.
Como trabalhar, metodologicamente, com a memória?
Acho que é o olhar. Não é a metodologia. É olhar com o qual você trabalha com qualquer que seja o suporte da memória. É isso que ocorre em Memória do Jongo (livro-CD de autoria dos pesquisadores Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco sobre as gravações históricas de Stanley J. Stein, feitas em Vassouras-MG, em 1949), que registrou cantos de jongo.
As pessoas achavam que haviam perdido esses registros, mas elas os recuperaram. Aí, uma série de pessoas foi estudar o que é o jongo como tradição de cultura africana nessa região do café, no Vale do Paraíba, em Minas Gerais e São Paulo, na região do Sudeste.
O que os professores Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco fizerem é uma coisa maluca, porque ele vai pegar referências das cosmologias da África Central; palavras que são usadas, elas têm fragmentos, coisinhas mínimas que você vai encontrar, sei lá, a grande palavra, a cumba; jongueiros são as grandes cumba.
O que é que é cumba? Ele vai inventariar nas culturas africanas as multiplicidades de referências a essa palavra, que vai ter a ver até com macumba. Quer dizer: você começa a falar o jongo, que vai dar numa forma de religiosidade que surgiu muito depois, que você diz que já foi misturado. Quer dizer: é o olhar dele que vai dizer onde tem essa memória. Ela tem fragmentos o tempo inteiro, ou então ela está na rítmica, por exemplo.
Por isso é que eu estava dizendo que tem uma história escrita no corpo desse universo africano. Você tem uma forma de preservação da memória no mundo onde memória está tudo junto, que é mnemônico. Isso é ritmo e é canto tudo junto. É palavra. É todo o resto. A questão como você identifica a memória? É o cuidado de você olhar cultura, em cima de qualquer coisa que você tenha na mão: seja o registro sonoro seja o documento escrito.
Quando trabalhei essas historinhas que uso os desenhos, peguei uma literatura de memorialistas. É o sujeito que está falando na primeira pessoa. Pra mim, não interessa se ele está romanciando ou não. O meu olhar está vendo lá dentro o que ele está me contanto sobre o ethos da cultura em que foi produzido esse relato. Do meu ponto de vista, é isso que me interessava especificamente quando eu estava lidando com essa coisa da memória.
Qual a sua posição nesse debate sobre a patrimonialização da memória?
A minha resposta é uma só: como construção de história de memória, é tudo uma questão de poder. Quando você é capaz de dar, via políticas públicas, instrumentos para os grupos subalternos disputarem melhor no campo simbólico de poder espaços que sejam próprios, eu digo: bendito seja Deus, tá! Veja o exemplo da Bahia: por que a Bahia é o grande Estado negro do Brasil? Porque simplesmente tem recursos de reconhecimento.
Não é o fato de o Ipham (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) ir lá tombar as coisas, tá certo? Mas se legitimou de tal modo essa imagem da Bahia Negra que os grupos negros têm hoje como exercer um papel, um lugar dentro da sociedade baiana que você não vê em outro lugar do Brasil. Ou seja: é a legitimação que abre espaço para a conquista de mais espaço. Sou, absolutamente, favorável nesse sentido, não no sentido de congelar o bem, o valor etc. Esse caminho é o caminho de poder… Aí se tem condição de jogar melhor.
“São Gabriel da Cachoeira (município do Amazonas) acabou de eleger um prefeito
indígena. Eu lá em São Paulo pulando de alegria, até que enfim, que maravilha!”
Não sou etnóloga, mas acho que, na verdade, você tem um lado que está extremamente avançado e outro que está extremamente atrasado. Avançado no sentido do que você tem de pesquisa acadêmica seríssima, pesquisa de etnohistória.
A professora Manuela Carneiro da Cunha, por exemplo, estuda longamente toda essa região Norte, na história dos grupos indígenas daqui. O que eu acho importante é a capacidade dos próprios grupos indígenas estarem se organizando em função de uma história que é deles, da reivindicação de um lugar para a sua memória, para a sua cultura e para sua presença na vida social. Por esse lado, acho que está, aqui, muito bem obrigado. São Gabriel da Cachoeira (município do Amazonas) acabou de eleger um prefeito indígena. Eu lá em São Paulo pulando de alegria, até que enfim, que maravilha!
Agora, ao mesmo tempo, quando você pega uma questão como Raposa Serra do Sol, o Brasil não tem a menor noção, você tem os piores grupos de direita acusando índios de serem imperialistas, de ser um risco para a segurança nacional. É aquela coisa retrograda do discurso militar dos anos de 1970 que está na boca do presidente do Supremo Tribunal Federal. Isso aqui me dá pavor total.
Então, na verdade, acho que está muito bom no sentido de se ter uma matéria-prima de resgate de reafirmação de memória, de história, de lugar político, de reivindicação etc. Mas, meu Deus, tem que lutar com uma oligarquia local das piores possíveis! Para mim, Roraima é só um exemplo do que é isso. Rondônia é parecido, o Acre eu não conheço muito bem. Em termos locais já é duro.
Agora em termos nacionais é uma tragédia, porque aí você tem assim: a imprensa, a opinião pública formando a visão que vocês aqui não tem como inventar que índio é uma coisa totalmente estratosférica ou extraterrestre, porque ele está do outro lado da rua. Agora lá, em São Paulo, você chegar e dizer: escuta, os grupos indígenas do Brasil são uma riqueza absoluta do patrimônio cultural desse país, da diversidade cultural desse país.
Você diz isso e os caras olham como se você fosse louca. Porque, eu acho que tem isso: tem um lado que vai muito bem, o outro lado eu acho que é uma tragédia, porque esse país continua ignorando as existências dos povos indígenas e, no momento, se tem uma ofensiva de direita das mais danosas, que, se puder, ferra com Raposa Serra do Sol; e a partir daí vai começar a rever todos os processos de demarcação de terras indígenas. Vai criar problemas para as terras de quilombo.
O momento político é o dos mais dramáticos para a questão indígena, inclusive para a questão quilombola em termos de propriedade. Agora, em termos de organização, bendito seja São Gabriel da Cachoeira, onde uma população é capaz de estar lá dizendo: eu sou cidadão tempo integral, totalmente indígena brasileiro a ponto de eleger o meu prefeito! Isso é uma situação contraditória intensa.
A senhora coloca a imprensa também na sua relação de elite, de poder?
No momento, onde eu moro, há um jornalista polêmico, o Paulo Henrique Amorim, que chama todos os veículos de comunicação de PIG (Partido da Imprensa Golpista). Não acredite no PIG, leia blog, porque senão você está perdido. Quer dizer: você tem, no eixo Rio-São Paulo, um agente de tal conservadorismo que é um problema sério. Jornalista virou empregado do dono do jornal. E aí editorial e “jornalismo investigativo” são coisas feitas segundo os interesses econômicos e políticos.
Se você está naquele eixo Rio-São Paulo, você tem a imprensa mais absolutamente reacionária, por uma razão muito simples: esse país está mudando. Há uma política nacional em que hoje o Norte conta, o Nordeste conta, o Centro-Oeste não é terra de ninguém. São Paulo está perdendo loucamente o poder. Então vamos batalhar para 2010! O problema é a gente garantir que o Serra estará lá retomando o poder de São Paulo no governo central! A imprensa inteira funciona para isso. Criam-se crises institucionais.
Essa história do grampo no Gilmar é a coisa mais dantesca que eu já vi na minha vida: uma coisa criada pela Veja, repercutida pelos jornais. Uma baita crise institucional em favor de quem? Em favor de seis arrozeiros que vão ferrar com a Raposa Serra do Sol e, que vão abrir espaços para revisar todas as demarcações, todas as conquistas indígenas e quilombolas desse país.
Eu te diria: a imprensa hoje em dia não dá para você passar por perto. O único consolo é que, graças a Deus, cada vez mais a Internet está se tornando um meio alternativo de informação.
Agora quem pauta a cabeça pelo Jornal Nacional? Tem a situação dramática que estamos vivendo em São Paulo, onde a eleição para prefeito pode ser ganha pelo PFL, atualmente DEM. São Paulo é o único lugar onde o PFL conseguiu sobreviver. Ele foi varrido da Bahia, o neto do Antônio Carlos Magalhães nem para o segundo turno passou. Em São Paulo, ele (o DEM) conseguiu ser eleito. O Jornal da Globo, oh, o PIG, pode fazer a cabeça do eleitor, e eu vou ter que agüentar, aturar o DEM sendo prefeito da minha cidade, eu quero morrer, eu quero vir para Manaus, eu quero pedir asilo político para vocês aqui.
Por que se diz que o brasileiro tem memória curta?
Como todas as coisas do senso comum, isso tem um pedaço de verdade e um pedaço de mentira. O porquê do pedaço de mentira eu tentei mostrar na minha comunicação. Tem memória mais persistente para coisas essenciais do que essa memória negra que eu tentei escavar em São Paulo. Não é verdade que tem memória curta. Por outro lado, com os meios de informação que você dispõe, e com um globinho lá para ajudar.
Na verdade, eu acho que é assim: o mundo tem memória curta, tem uma quantidade de informação e uma hegemonização falsa, coisas irrelevante ao lado de coisas importantes, que tudo passa batido.
Nesse sentido tem memória curta porque aconteceu tal coisa; tá, mas o que isso tem a ver comigo? Se não tem uma educação formal, se você não tem consciência de cidadão, por que você haverá de achar que o diabo do Cassabe ser do DEM te importa? Porque o DEM acabou? O DEM foi algo que passou. Então você mudou o nome e já faz de conta que é outra coisa e não precisa mais lembrar.
Agora tem que ver assim: historicamente com essa coisa de barrar o acesso à educação e não se preocupar de jeito nenhum com a cidadania. Hoje, acho que de um modo geral, tudo, na verdade, foi feito para se ter uma informação de consumo rapidíssimo. Aí eu não acho que é só o brasileiro. O mundo tem memória curta hoje em dia. Mas se eu lembrar que tenho o vídeo, o livro e essa memória que eu tentei te mostrar, acho que ela está lá fincada na longa duração da história.
