A nova moda dos presidentes dos festivais

A situação protagonizada pelo presidente da Flor Matizada lembra o episódio ocorrido no último Festival Folclórico de Parintins

A nova moda dos presidentes dos festivais

Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 02/09/2025 às 11:45 | Atualizado em: 02/09/2025 às 11:45

Após o resultado do 27º Festival de Ciranda de Manacapuru, que deu o título de campeã para a ciranda Tradicional, o presidente da Flor Matizada jogou no chão o seu troféu de vice e o da campeã no chão.

Os troféus estavam sobre uma mesa na sala de apuração. Eles eram feitos com dois bonecos de cirandeiros pintados nas cores de cada ciranda.

Não satisfeito em joga-los no chão, o presidente Alexandre Queiroz se dirigiu ao troféu da Tradicional e pisou nos bonecos, quebrando a perna do cirandeiro dourado, soltando por inteiro da base.

Os membros da Tradicional tiveram que posar para as tradicionais fotos em que os campeões levantam o troféu segurando o boneco sobre a base e a perninha do boneco cirandeiro, tapando a emenda com as mãos, para que ele não fosse eternizado sem perna nas fotos da imprensa.

Foi improvisada uma atadura de fita adesiva transparente para que a perninha não soltasse no traslado da comemoração. A fita também foi passada nos pés da boneca cirandeira, dando a impressão de que reforçava sua fixação na base.

A situação vexatória circulou nas redes sociais e virou notícia nos veículos de imprensa.
Investimento de peso.

O Festival de Ciranda de Manacapuru é o segundo maior festival da cultura popular do estado do Amazonas, e tem apenas 27 anos. Só fica atrás do Festival de Parintins, que tem 58 edições.

Em 2025, foi notável o investimento do governo do estado, prefeitura de Manacapuru e parlamentares para elevar ainda mais o nível do festival.

As três cirandas fizeram, inquestionavelmente, espetáculos de altíssimo nível artístico.

Foi montada uma estrutura com um palco alternativo no lago do Miriti para aproveitar as atrações naturais do município; foram chamados artistas nacionais para as festas que ocorreram após as apresentações no Parque do Ingá; foi criado um passeio guiado pelo cirandódromo para que os visitantes e moradores pudessem conhecer mais do festival de ciranda; foi montada uma feira gastronômica e de artesanato na praça de alimentação do cirandódromo; barraqueiros montaram um verdadeiro arraial ao redor.

Ressalto tudo isto para lembrar que há muito investimento público e privado envolvido na realização e promoção de uma festa dessa grandiosidade para que o objeto que simboliza o título de tudo que o mobiliza, a vontade de vencer, seja jogado no chão, pisado e quebrado.

Virou moda

A situação protagonizada pela Flor Matizada lembra o episódio ocorrido no último Festival Folclórico de Parintins, quando o presidente do boi bumbá Caprichoso, Rossy Amoedo, afrontou o presidente da comissão de jurados, antes do fim da apuração, insinuando fraude no resultado que se desenhava.
Bradando que iria comprovar a fraude, se retirou da sala de apuração, seguindo a pé com outros membros do boi Caprichoso, cercados por seguranças que empunhavam porretes.

A situação vexatória do presidente da Flor Matizada tem uma dimensão a mais de comprometimento, já que Alexandre Queiroz é ainda secretário de turismo do município, um nível mais alto na hierarquia dos poderes locais. Faltou senso de autoridade pública ao secretário municipal nesse momento.

O exemplo

Além da acusação de fraude, o presidente foi violento quebrando o troféu. Como liderança de sua comunidade, ele poderia ter arregimentado apoiadores em seu ato histérico, já que a sala de apuração localiza-se no Parque do Ingá, que estava cheio de torcedores das três cirandas.

É compreensível que os envolvidos diretamente em festivais que mobilizam paixões como os bois-bumbás de Parintins, o carnaval, as cirandas de Manacapuru, times de futebol e similares, questionem resultados.

Quem realiza os espetáculos de festivais como esses está imerso em uma aposta que lhes toma a vida por quase um ano. Mas é preciso saber perder, pois trata-se de uma aposta.

Sobretudo, os presidentes, já que eles são os líderes, o exemplo. Comumente, imprimem em suas gestões uma personalidade que reflete no desempenho de suas agremiações. Mas não no resultado.

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Cultura política

Parece que as reações intempestivas dos presidentes aqui citados refletem um momento político do país, no qual resultados de disputas, cujas regras são previamente definidas, não são aceitos. E suas manifestações de contrariedade são levadas às últimas consequências.

Esse é um efeito político previsível. Contudo, desejamos que “a moda” não vire um costume, pois a tendência é que tais manifestações de contrariedade se tornem, cada vez mais, abrangentes e violentas.

Fotos: Aguilar Abecassis/Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa e reprodução