Depois de conseguir R$ 20 de uma bela moça, ele parou para comer
Ele levantou a camisa e bateu na barriga curvada para dentro: “isso aqui é fome, fome”
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 12/09/2025 às 06:33 | Atualizado em: 12/09/2025 às 09:07
Não sei por quanto tempo ele se pôs sentado no batente da porta de uma casa antiga da Rua 10 de Julho, ao lado do teatro Amazonas. Da maletinha verde-escuro entre suas pernas, ele tirou um sanduíche que comia a seco, sem suco, refrigerante nem água. Ele intervalava as mordidas no alimento com olhar distante que atravessava o teatro para além daquilo que outros poderiam estar enxergando.
Ele fez ponto ali, na frente desse hotel. Lá, ele se pôs a abordar pessoas indistintamente, sob o sol escaldante do meio-dia do verão amazônico. Mas só parou depois que conseguiu R$ 20 com uma bela jovem que deixava o hotel.
“Eu só quero comer, eu estou com fome”, dizia em suas abordagens no espanhol de seu país, a Venezuela.
Eu também estava na frente no hotel à espera do presidente nacional do PT, que se hospedou ali. Me acompanhava do jornalista Gabriel Ferreira, quando ele se dirigiu a mim, perguntando:
– Periodista?
– Sim.
E ele começou a falar como quem quisesse desabafar. Eu não contei conversa. Puxei o microfone e o deixei falar.

Muito do que ele falou com os olhos tentando conter as lágrimas destaco em frase e transcrevo o que conversamos.
Sabe, antes de escrever as frases e colocar aqui a transcrição, preciso descrever porque só os sentidos do corpo e da alma são capazes de capturar. Foi o momento em que ele, franzino, levantou a camisa e bateu na barriga curvada para dentro: “isso aqui é fome, fome!”
“Lamentavelmente, passamos dois dias de fome”
“Nós, venezuelanos, como estamos refugiados em todas as partes do mundo, por culpa de um animal que tem na Venezuela”.
“Aqui no Brasil eu me sinto livre. Não me sinto oprimido como eu me sentia na Venezuela. Minhas filhas se sentem livres. Minha esposa se sente livre”.
“Muita gente não sabe. Mas há milhões de venezuelanos por todas as partes do mundo, passando trabalho e fome. E isso é o que me incomoda”.
Transcrição
Nós somos imigrantes venezuelanos. Infelizmente não falamos português. Lamentavelmente, estou refugiado aqui no Brasil. Tenho 61 anos, era uma pessoa muito ativa na Venezuela. Estou refugiado aqui com minha família, com minha esposa e meus filhos.
Eu tenho abordado mais de 100 pessoas pedindo um pão e um refrigerante e não me dão. Infelizmente, não podem me ajudar. Não é por culpa deles, porque todos os brasileiros não são iguais. Porque sempre há um que te ajuda.
Mas é para que vocês vejam o que está acontecendo no meu país. Nós, venezuelanos, como estamos refugiados em todas as partes do mundo, por culpa de um animal que tem em Venezuela. De todas as maneiras, apoiem o povo, apoiem o povo, para não ter esse animal.
Você está passando fome aqui em Manaus?
Lamentavelmente temos um dia, não que passe fome, mas que lamentavelmente passamos dois dias de fome.
Você veio para cá há quanto tempo?
Seis dias.
Há seis dias?
Sim. Eu tenho 90 dias (viajando). Eu vim viajando para cá, duramos 90 dias para chegar aqui e aqui temos seis dias de ter chegado em Manaus.
Como você está se virando aqui?
Eu estou trabalhando desde as 3 da manhã até as 6 da manhã carregando tomate e cebola no mercado para poder pagar aluguel, infelizmente como dizem.
E você fazia o que na Venezuela?
Eu sou mecânico, sou técnico em eletrônica, eu trabalhei 20 anos em Fórmula 1 na Isla de Margarita. Sou o inventor da famosa corneta, famosa música, som expansivo na Venezuela. Fui muito conhecido lá. Lamentavelmente, isso não é nem a milésima parte do que eu realmente sou. Mas eu passei muito trabalho, sabe?
Por que você deixou a Venezuela?
Porque o que eu fiz em 20 anos de trabalho, o que o governo venezuelano me deixou em 20 minutos. 20 anos de trabalho por 20 minutos da polícia, me deram tudo.
De qualquer forma, ainda me ficam duas casas, minha moto, meu bote, minha irmã maior se deixou lá. Mas se não, eu também o pego. Se eu sou desse estado, a meu nome. Também me chamam.
Qual é o seu nome?
Luís Alberto Santiago Azevedo.
Alberto Santiago?
Luís Alberto.
Luís Alberto?
Luís Alberto, sim. 61 anos, 61 anos.
Você morava aonde?
Na Isla de Margarita, Venezuela. Estado Nova Esparta. Como eu te disse, tenho duas casas ali
Qual é o teu desejo aqui no Brasil?
Aqui no Brasil eu me sinto livre. Não me sinto oprimido como eu me sentia em Venezuela. Minhas filhas se sentem livres. Minha esposa se sente livre.
Porque estar em Venezuela é estar preso. Está sob a cadeia do governo. Você se sente oprimido. Porque se pintar a sua casa, você tem que dar a metade a eles. Se você tem dois carros, você tem que dar um a eles.
Você está fazendo aqui um ponto estratégico perto do Teatro Amazonas. Você escolheu por acaso ou tem alguma outra explicação?
Não, não, não. Olha, eu sou um líder venezuelano. Aqui eu não sou líder. Eu sigo sendo líder para a minha gente. Mas eu vou te dizer uma coisa senhor, um homem verdadeiro que quer seu país, é preferível pedir para a gente algo de comer, se não tem trabalho.
Você veio sozinho, tem família?
Não, estou com minha esposa e minhas 2 filhas, 2 crianças.
Quais são as idades?
Uma de 8 e uma de 12.
Um de 8?
8 anos e 12 anos. 12 anos. São minhas filhas, minhas 2 filhas. Por isso que estou aqui.
E eles tem o que comer?
Não, eu vim buscar comida. Me parece um dos melhores restaurantes de Manaus, aqui. Eu não culpo a ninguém, compreende? Mas se você parar em um restaurante e pedir algo de comer, por amor a Deus, vale?
Como é que você olha para os seus filhos aqui?
Hã?
Como é que você vê os seus filhos?
Meus filhos?
Sim.
Meus nomes?
Sim. Como é que você vê a situação deles?
Como? Como eles estão? Estão no apartamento.
Como eles estão?
Estão bem. O que falta é comida. Nada mais, é comida.
Você imaginou alguma vez na vida passar por isso?
Não. Eu lhe disse algo, senhor. Eu já não trabalhava em Venezuela. Eu já estava tranquilo. Eu estava em paz. Não me falta nada.
Lamentavelmente, quando tomou o governo, Nicolás Maduro, eu perdi tudo. Não me arrependo. Mas eu estou aqui com a minha família, passando trabalho. Mas eu sou um homem. E com a minha família, com o que seja. Esse homem tem o país assim, pesado. Isso muita gente não sabe. Mas há milhões de venezuelanos por todas as partes do mundo, passando trabalho e fome. E isso é o que me incomoda.
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Fotos: BNC Amazonas
