Na política, as palavras fazem muitas curvas
Há episódios de sobra que mostram que as palavras no Amazonas costumam fazer curvas, muitas e sinuosas curvas.
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 23/10/2025 às 18:18 | Atualizado em: 23/10/2025 às 19:22
A pré-candidata ao Governo do Amazonas pelo PL, Maria do Carmo Seffair, postou recentemente um vídeo que suscita uma memória sobre a história das eleições no estado. Nele, a direitista comemora que o presidente nacional de seu partido, Valdemar Costa Neto, “bateu, publicamente, o martelo“ sobre sua candidatura ao cargo.
Em tom de comemoração, consciente ou inconsciente de que essa definição poderá não ser confirmada no curso do processo eleitoral, ela usou uma sabedoria:
“Nós somos mulheres e homens públicos que acreditam que palavra não faz curva”.
É neste ponto de seu vídeo que há necessidade de se fazer um contexto histórico das campanhas políticas no Amazonas.
Melo capotou na curva
Isso porque há episódios de sobra que mostram que as palavras no Amazonas costumam fazer curvas, muitas e sinuosas curvas.
A história recente mais notória se deu em 2002. Eduardo Braga, candidato a governador, tinha por certo que seu vice seria o então deputado federal José Melo.
Para tanto, este montou uma grande festa para esperar o anúncio na convenção da chapa.
O próprio Melo conta que levou até sua mãe para a convenção.
No entanto, ao entrar no Olímpico Clube, no centro de Manaus, ele recebeu a informação de que fora substituído por Omar Aziz.
O detalhe é que a curva da palavra que lhe garantia o posto de vice se desenhou do trajeto de sua casa até o local do ato político.
O tranco em Rebeca
Outro fato de grande relevância na história política nesse mesmo enredo se deu em 2012.
O contexto foi a eleição para prefeito de Manaus. E de novo estavam lá Braga e Aziz, este, então governador, trabalhavam com a certeza de que a candidata do grupo deles seria a então deputada federal Rebeca Garcia.
E assim aconteceu. Porém, só até o prazo final das convenções partidárias.
Isso porque, na noite-véspera do evento que confirmaria Rebeca à disputa, ela desistiu.
Braga, que a tratava como candidata de seu grupo, fez ela desistir do jogo em cima da hora, nos vestiários.
A comunista Vanessa Grazziotin, então senadora da República, serviu como boi de piranha na eleição que acabou escolhendo o tucano Artur Virgílio Neto como prefeito de Manaus.
A curva mudou a história
Outro fato que marca a fragilidade e a curva das palavras no processo político eleitoral do Amazonas envolveu o atual governador Wilson Lima.
Foi no ano em que ele estrearia como candidato. Em 2016, o então apresentador de TV se preparava para ser o vice-prefeito de Manaus na chapa liderada pelo deputado federal Marcelo Ramos, no então PR, o hoje PL de Bolsonaro e Alfredo Nascimento.
Lima tinha a palavra para isso. A mesma palavra que Maria do Carmo hoje diz ter do partido que, coincidentemente, está nas mãos de Alfredo Nascimento no Amazonas.
Mas, no caso do novato Lima, ele sofreu um revés. Foi substituído pelo então deputado Josué Cláudio Neto.
Existe ainda um episódio que envolveu o ex-deputado federal Alfredo Nascimento, presidente do PL no Amazonas.
A propósito, Alfredo foi testemunha do anúncio do presidente Nacional do seu partido sobre Maria do Carmo.
Mas ele, Alfredo, já foi vítima de palavras que se curvam no Amazonas. Em 2010, ele era candidato a governador, tendo Serafim Correa como vice. Os dois formavam uma dupla imbatível, não apenas pelos números de intenção de votos que reuniam à época, mas porque, em tese, eram os candidatos do presidente Lula, que estava com alta popularidade.
Tudo estava certo para que o líder petista anunciasse que Alfredo Nascimento era o seu candidato a governador. Também estava certo que Lula viria ao Amazonas fazer campanha para a chapa Alfredo e Serafim.
No entanto, entrou um candidato chamado “Osmar Aziz”. Não estranhe: naquele ano, Lula não conhecia Omar Aziz e o chamou de Osmar. Esse tal Omar apareceu como candidato a governador, indicado pelo senador Braga.
Lula, então, para não contrariar os seus aliados no Amazonas, resolveu ficar em cima do muro. Não anunciou apoio a Omar, mas, também, não anunciou nem fez campanha para Alfredo, que era seu ministro dos Transportes.
Provocado a responder sobre esse assunto, em Manaus, Lula soltou a clássica comparação da política com as nuvens. “Política é como nuvem. Você olha, ela está de um jeito; olha de novo e ela já mudou”.
Maria do Carmo pode ser, sim, a candidata do PL a governadora, mas precisará conviver com as incertezas, com as curvas do processo, até seu nome estar inscrito no TSE.
Ilustração: Gilmal
