Governadores bolsonaristas fazem palanque da matança no Rio

Figuras como Tarcísio, Castro, Jorginho e Caiado apostam nos cadáveres para retomar narrativas na mídia.

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 30/10/2025 às 19:15 | Atualizado em: 30/10/2025 às 22:29

A mais letal operação policial da história do Rio de Janeiro, com pelo menos 119 mortos confirmados pelo próprio governo que ordenou a matança, desencadeou uma movimentação imediata de governadores bolsonaristas da direita em busca de retomar espaço de narrativas na mídia.

Em vez de questionar a matança indiscriminada e a falta de prisões de chefes do crime, governadores correram para transformar a tragédia em palanque eleitoral.

A tentativa é de retomar protagonismo após o desgaste da campanha pela anistia aos golpistas de Bolsonaro, do fracasso da PEC da blindagem e da recuperação da popularidade do presidente Lula da Silva.

Romeu Zema (Minas Gerais) e Jorginho Mello (Santa Catarina) lideraram reuniões com Tarcísio de Freitas (São Paulo), Ronaldo Caiado (Goiás), Mauro Mendes (Mato Grosso) e Cláudio Castro (Rio de Janeiro), impulsionando um discurso de endurecimento penal e ataque ao governo de Lula.

E com outro objetivo: formar uma frente política e ficar o menos dependente possível de Bolsonaro.

O presidente do PT, Edinho Silva, acusou os governadores de “montar palanque sobre os corpos” e fazer “comício sobre as lágrimas de centenas de mães que ainda não enterraram seus filhos”.

Enquanto o Rio se via em estado de choque, com ruas bloqueadas e relatos de desaparecidos, o governador comemorava “sucesso” da operação de matança dos que chamou de “narcoterroristas”, fazendo coro com Donald Trump e Flávio Bolsonaro.

Horas após o governador reclamar da ausência de apoio federal, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, afirmou que ele sequer solicitou ajuda oficial.

Palanque no luto

O movimento tenta tirar o foco da agenda da anistia, que isolou a direita e ligou os governadores a um passado recente de ataques às instituições.

Agora, a aposta passa por revitalizar o discurso da “lei e ordem” e recuperar parte do eleitorado perdido, especialmente no empresariado paulista que vinha sinalizando afastamento de Tarcísio.

A estratégia reedita um manual costumeiro no Rio: operações de alto impacto, elevado número de mortes, pouca ou nenhuma desarticulação das estruturas criminosas e ganho político imediato.

Sem projetos consistentes, inteligência estruturada ou reorganização territorial, a criminalidade segue avançando e o território estatal permanece em disputa por facções e milícias.

Entre discurso e realidade

Em Minas, Goiás e São Paulo, o crescimento das facções e dos índices de violência organizada desafia o discurso de “mão firme” que os governadores tentam exportar.

Especialistas alertam para o risco da militarização simbólica da agenda de segurança, com foco na retórica, não em resultados concretos.

A movimentação também revela disputa interna: Tarcísio ainda tenta conter a pressão para se lançar à Presidência, enquanto Zema e Caiado buscam se colocar como alternativas à liderança órbita bolsonarista.

A operação no Rio produziu números dolorosos e perguntas sem resposta. Mas, para parte da classe política, ela forneceu outra coisa: cenário ideal para retomar a disputa pelo eleitorado de 2026 com bandeiras fáceis e slogans duros.

Os corpos empilhados no Rio reacendem uma velha tática: transformar dor em palco, luto em campanha e sangue em ativo eleitoral. 

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Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil