Amazônia e a rota de mercúrio de garimpeiros

Estudo revela como Rondônia virou corredor estratégico para o metal que sustenta o garimpo ilegal na floresta.

Facebook é advertido por divulgar anúncio de venda de mercúrio para garimpeiros

Publicado em: 21/11/2025 às 12:53 | Atualizado em: 21/11/2025 às 12:55

Rondônia virou ponto-chave da engrenagem clandestina que espalha mercúrio pelos garimpos da Amazônia. Embora discreta, a rota opera entre Guajará-Mirim, no Brasil, e Guayaramerín, na Bolívia, onde pequenas travessias garantem a circulação do metal que impulsiona a extração ilegal de ouro.

O alerta aparece no estudo “Mercúrio na Amazônia”, produzido pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). As instituições explicam que o mercúrio segue útil na amalgamação do ouro e circula facilmente no mercado paralelo.

Antes centralizado no Peru, o contrabando migrou para a Bolívia após a adesão peruana à Convenção de Minamata. Assim, organizações criminosas aproveitaram a ausência de controle rígido e transformaram o país vizinho no principal importador de mercúrio da região. Em 2016, por exemplo, a Bolívia comprou 238 toneladas, embora precisasse de apenas 34.

Segundo a Abin e o MMA, essa adaptação rápida mostra a articulação transnacional das redes criminosas. A proximidade com Acre, Rondônia e Mato Grosso, aliada à circulação livre em cidades-gêmeas como Guajará-Mirim e Guayaramerín, facilita o escoamento do metal. As travessias diárias no rio Mamoré misturam viagens legais e ilegais, o que dificulta o controle estatal.

A pesquisa mostra que o mercúrio chega à Bolívia vindo do Tajiquistão por triangulação entre Emirados Árabes Unidos, Índia e Rússia. Depois, atravessa o Mamoré em pequenos frascos e segue para Porto Velho, que redistribui o produto para áreas de garimpo no Madeira e no Tapajós.

Os riscos são severos. A Organização Mundial da Saúde afirma que o mercúrio é altamente tóxico. Nas comunidades amazônicas, ele contamina peixes e coloca em risco indígenas e ribeirinhos. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Socioambiental (ISA) mostrou que 94% dos Yanomami avaliados tinham traços da substância no organismo.

Ainda assim, o contrabando prospera. De acordo com a Abin e o MMA, o comércio é lucrativo em todas as etapas. O quilo custa entre US$ 10 e US$ 31 na importação formal, mas chega a R$ 6 mil perto dos garimpos. As mesmas redes que compram ouro vendem o mercúrio, o que alimenta o ciclo criminoso.

Apesar das operações do Batalhão de Polícia de Fronteira (BPFron), da Polícia Rodoviária Federal e do programa Protetor do Ministério da Justiça, Rondônia permanece vulnerável. Assim, rios, florestas e comunidades continuam pagando o preço de uma rota clandestina que segue aberta e lucrativa.

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Foto: divulgação