Plantas caseiras agregam cura física e afeto espiritual, diz sabedoria ancestral

Em várias culturas, pessoas e plantas mantêm relações sociais e espirituais que promovem proteção mútua

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas 

Publicado em: 06/12/2025 às 12:02 | Atualizado em: 06/12/2025 às 12:02

As “plantas de casa” estão longe de ser apenas ornamentos. Cultivadas com cuidado e carinho, elas fazem parte da família, preenchem espaços físicos e espirituais do lar e dos negócios. 

Gentes e plantas, em diversas culturas interagem social e espiritualmente e, assim, se protegem umas às outras.

Entre as “caseiras” mais queridas e respeitadas estão o pião roxo (ou pinhão), espalhado a partir da América Central; a zamioculca, a espada-de-são jorge e a jiboia, de origem africana; a arruda, tem raiz na região do Mediterrâneo;  e o tajá, planta nativa da Amazônia.

Curandeiros, erveiros e xamãs atestam que elas quebram o “mal olhado” e doenças misteriosas, que se manifestam por meio de pensamentos maléficos, inveja e quebranto. 

A jiboia e a arruda atraem fortuna e bem-estar. Há pessoas – e não são poucas – que costumam colocar uma folhinha delas na carteira porta-cédulas como “chama mais”.

O pião roxo também age com eficácia em sessões de banhos e surras que espantam maus espíritos e demônios de corpos por eles possuídos. 

Na cultura Macuxi (Roraima), o tajá simboliza o amor, porque nasce dos restos mortais de um casal apaixonado. O marido preferiu enterrar-se na mesma cova da esposa a continuar a vida sem ela.

Sacacas

Sacaca é um termo usado na Amazonia afro-indígena para designar uma pessoa com poderes para escolher e manipular plantas na cura ou proteção física e espiritual de indivíduos e coletividades.

O jornalista Fred Góes, presidente do boi-bumbá Garantido, revelou ao BNC Amazonas que nasceu sacaca, embora não exerça o dom. Um dos sinais de que a pessoa nasce sacaca é o choro dela ainda no ventre da mãe. O fenômeno aconteceu com ele, segundo lhe revelou dona Ciloca Góes, também sacaca. 

Góes conta vários episódios que sustentam esse conhecimento afro-indígena, mas destaca o que lhe marcou mais. 

No retorno de uma viagem com a família às praias de Juruti Velho, no Oeste do Pará, Fredinho Góes (hoje músico), bebê de quatro anos, ardeu em febre e chorou por toda a boca da noite.

O socorro de um pediatra não surtiu efeito e lá pelo começo da madrugada recorreu ao sacaca João Rolim, seu tio. Rolim, pelo relato que ouviu, diagnosticou que a criança estava perturbada pela presença de espíritos de cabeceira de rio e lhe recomendou que surrasse a casa toda por fora com galhos de pião roxo.

A surra foi executada pelo próprio Góes e assim que se encerrou o ritual, a criança parou de chorar e teve sono profundo no resto da noite. 

“Creio na fé e experiência dos meus ancestrais, porque eles compreendem o mundo como um espaço de compartilhamento de vidas indistintas”, resumiu o artista.

A popularidade das plantas místicas e medicinais pode ser comprovada na Banca da Japonesa, no mercado Adolpho Lisboa, em Manaus. Ela possuiu centenas de mudas para venda, além de xaropes, garrafadas e unguentos elaborados artesanalmente.

Clientes não faltam. Buscam remédios de plantas caseiras e silvestres para todo tipo de doenças e má-sorte 

 As “doenças” mais citadas pelos clientes são dor de joelho, dor na coluna, dor de estômago, queda de cabelo, coceiras, febre de reumatismo, urina presa etc. 

“Se essas plantas não curassem, as pessoas não viriam atrás delas”, afirma Rosana Michie Takeda dos Antos. Ela revela que são muitos os relatos a confirmar os poderes medicinal e espiritual das plantas.

Dona Martinha Santos disse que sempre recorre à Banca da Japonesa para comprar xaropes que combatem resfriados e pomadas que aliviam as suas dores nas articulações. “O resultado sempre me satisfaz”, acentuou.

Dona Rosinha Freitas disse que cultiva “jiboia” por acreditar que a planta protege a casa. “Minha avó dizia que a jiboia se transforma no animal homônimo enquanto as famílias dormem. Além disso, é uma planta ornamental belíssima”, salientou.

Santelma Silva assegura que a espada de São Jorge protege a casa dos maus espíritos e da inveja. Segundo ela, a espécie representa o santo cultuado entre cristãos católicos e religiões de matrizes africanas.

Mercadão

Na entrada do Mercado Adolpho Lisboa voltada para o rio Negro existem vasos com pés de pião e espada-de-são jorge. Elas dão boas vidas e protegem o prédio, seus usuários e visitantes. 

O mercado Adolpho Lisboa, construído no começo do século 20, é inspirado no mercado Les Halles de Paris. 

Trata-se de um dos símbolos da modernidade na floresta amazônicas, assim como são o Teatro Amazonas, também em Manaus, e o Teatro da Paz, em Belém (PA).

No setor norte do campus da Universidade do Amazonas, em Manaus, participantes de um encontro de saberes populares deixaram de herança um canteiro com algumas espécies, entre as quais se destaca um pé um de pião roxo, que agora simboliza o entrelaçamento entre saberes ancestrais e ciência ocidental e ocidentalizada.

As editoras universitárias que participaram da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2002, entre elas a da Universidade do Amazonas (UEA), “decoraram” seu estande coletivo com espada-de-são Jorge, também em homenagem  à beleza e à força espiritual que ela representa para brasileiros de todas as regiões.

Fotos: divulgação