Lula sanciona decreto que reconhece cultura gospel como patrimônio nacional
Com aceno ao centrão, em cerimônia com forte presença evangélica, presidente defende laicidade sem indiferença à fé e busca neutralidade de partidos de direita para projetos no Congresso
Da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 24/12/2025 às 09:31 | Atualizado em: 24/12/2025 às 09:40
Em um movimento que une reconhecimento cultural e estratégia política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, nesta quarta-feira, o decreto que reconhece oficialmente a cultura gospel como manifestação da cultura nacional.
Conforma a Folha de S.Paulo, o evento, realizado no Palácio do Planalto, contou com a presença de lideranças religiosas, artistas do segmento e uma comitiva ministerial de peso, simbolizando um esforço do governo para estreitar laços com o eleitorado evangélico.
Durante o seu discurso, Lula ressaltou a importância crescente do gênero no país. “A cultura gospel tem crescido e conquistado mais e mais corações e mentes”, afirmou.
O presidente também compartilhou um tom pessoal de gratidão: “Se existe alguém que precisa agradecer a Deus todos os dias, sou eu, por minha história de ascensão social e política”.
Fé, cultura e o estado laico
Ao abordar a relação entre governo e religião, o petista buscou desfazer resistências sobre o conceito de laicidade. Segundo Lula, o reconhecimento da fé como expressão cultural não fere os princípios constitucionais, mas os reforça.
“A Constituição garante que o Estado é laico. Mas isso não significa o Estado indiferente à fé do seu povo. Significa um Estado que respeita todas as crenças, que não discrimina, que não hierarquiza e que entende a espiritualidade como parte da experiência humana e da formação cultural do nosso Brasil”, declarou.
Assim, para o presidente, o decreto é um “passo importante de acolhimento” que confirma que a fé também se expressa como cultura.
Xadrez político com o centrão
Para além do simbolismo religioso, a cerimônia serviu como palco para a articulação política. A presença do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do vice-presidente Geraldo Alckmin, reforça a tentativa do Planalto de consolidar uma base de apoio mais sólida no Congresso.
O objetivo do governo é duplo:
- Imediato: garantir a aprovação de projetos de interesse do Executivo com o apoio do “Centrão”.
- Longo prazo: construir uma relação de não-agressão com partidos que pendem à direita. O desejo do presidente é que essas legendas, caso não venham a apoiá-lo diretamente, mantenham-se ao menos neutras na disputa presidencial.
Presenças de destaque
A solenidade reuniu figuras-chave do governo que possuem interlocução direta com o segmento cristão, como os ministros Jorge Messias (AGU) e Marina Silva (Meio Ambiente) — ambos evangélicos —, além da senadora Eliziane Gama (PSD-MA).
Também estiveram presentes as ministras Margareth Menezes (Cultura) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), e o ministro Alexandre Silveira (Minas e Energia).
Dessa maneira, o gesto é visto por analistas como uma tentativa necessária de reduzir a rejeição do governo em setores conservadores, utilizando a cultura como ponte para o diálogo institucional.
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Foto: Ricardo Stuckert/PR
