Luciana Gimenez e o palco que normalizou o ódio de Bolsonaro

À frente do Super Pop desde a fundação da RedeTV!, apresentadora comandou um programa que deu espaço recorrente a falas racistas, homofóbicas e autoritárias sem qualquer contraponto

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 19/01/2026 às 13:06 | Atualizado em: 19/01/2026 às 13:06

A saída de Luciana Gimenez da RedeTV!, após décadas à frente do Super Pop, encerra um ciclo que vai além do entretenimento televisivo. Sob seu comando, o programa se tornou um dos palcos mais confortáveis para Bolsonaro destilar discursos de ódio contra minorias, normalizar a violência e atacar valores democráticos, sempre sem enfrentamento, sem questionamento e, muitas vezes, acompanhado de risos.

Embora vendido à audiência como atração de variedades e entretenimento, o Super Pop funcionou, em diferentes momentos, como espaço de legitimação simbólica de um projeto político autoritário.

Bolsonaro não apenas foi entrevistado várias vezes quando era um parlamentar do baixo clero da Câmara, mas encontrou ali um ambiente amigável para repetir frases que marcariam sua trajetória pública, sem qualquer mediação crítica.

Entre declarações amplamente conhecidas e reiteradas ao longo dos anos, estão afirmações como:

“As minorias têm que se curvar às maiorias”.

E a ameaça explícita:

“Se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”.

Igualmente, a frase que sintetiza sua visão autoritária, que anos depois tentou levar a cabo no golpe de Estado:

“O erro da ditadura foi torturar e não matar”.

Em vez de confrontadas, essas falas foram tratadas com leveza, naturalização ou silêncio.

Papel passivo

Luciana Gimenez não é autora dessas declarações, mas seu papel como apresentadora foi decisivo na forma como elas foram recebidas pelo público.

Ao conduzir entrevistas sem tensão, ao rir ou evitar qualquer contraponto, ajudou a transformar discursos violentos em conteúdo televisivo palatável, diluindo sua gravidade e ampliando seu alcance.

A repetição desse formato contribuiu para que ideias antes restritas a nichos extremistas fossem assimiladas como opinião aceitável no debate público.

E assim Bolsonaro chegou aonde chegou, um leão com o aplauso dos seus seguidores, muitos deles lhe fazendo companhia na Papuda, mas um bichano diante da Justiça.

O caso expõe como programas de grande audiência, mesmo fora do jornalismo tradicional, podem exercer influência política direta, especialmente quando abandonam qualquer compromisso com mediação responsável.

A demissão da apresentadora ocorre em outro contexto, mas reacende um debate incômodo: até que ponto a televisão brasileira, em nome da audiência, ajudou a pavimentar o caminho para a normalização do discurso de ódio e da intolerância que marcou a última década da política nacional.

O papel da imprensa na disseminação do discurso de ódio

– Programas de entretenimento também são espaços políticos, ainda que não assumam essa condição formalmente.

– A ausência de contraponto legitima falas violentas e transforma preconceito em opinião aceitável.

– Em ano eleitoral, a exposição reiterada de discursos extremistas amplia seu alcance e impacto social.

– O riso, o silêncio e a condução condescendente funcionam como validação simbólica do autoritarismo.

– A responsabilidade da imprensa não se limita à autoria das falas, mas à forma como elas são mediadas.

Foto: reprodução/google