Erros básicos de português expõem fragilidade do modelo cívico-militar

Falhas elementares no ensino da língua em escola de São Paulo reacendem críticas à substituição de educadores por policiais.

Adríssia Pinheiro, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 05/02/2026 às 12:47 | Atualizado em: 05/02/2026 às 12:51

Duas palavras erradas no quadro-negro bastaram para acender um alerta sobre o modelo cívico-militar adotado em escolas públicas do Brasil.

O caso ocorreu na Escola Estadual Prof. Luciana Damas Bezerra, em Caçapava, São Paulo, neste início do ano letivo.

Durante monitoria feita por policiais militares aposentados, alunos receberam orientações sobre ordem unida, prática comum na hierarquia militar.

No quadro, porém, surgiram erros básicos: “descançar” e “continêcia”, grafias incorretas de descansar e continência.

O equívoco, flagrado pela TV Vanguarda, ocorreu em uma das 11 unidades do Vale do Paraíba que estrearam, neste ano, o modelo cívico-militar do governador Tárcísio de Freitas (Republicanos), no qual policiais reformados assumem parte das atividades pedagógicas.

Somente após conversa fora da sala, o monitor retorna, revê o quadro e corrige as palavras.

A Secretaria da Educação informou que o conteúdo pedagógico segue sob responsabilidade dos docentes da escola e que os monitores atuam na disciplina e na promoção de valores cívicos, passando por avaliações semestrais.

O peso da formação

Mas, na prática, a presença dos militares em sala de aula tem substituído educadores formados, gerando críticas e questionamentos. O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), por exemplo, classificou o modelo como “inconstitucional e autoritário”, e lembrou que a implantação foi feita sem consulta à comunidade escolar.

A contradição se amplia quando comparados salários e formação profissional.

Em 2026, o piso nacional dos professores da educação básica foi fixado em 5.130,63 reais para jornada de 40 horas semanais, valor que muitos estados ainda não cumprem integralmente.

Já em São Paulo, editais para atuação de policiais da reserva como monitores em escolas cívico-militares preveem remuneração diária que pode superar 300 reais por oito horas de trabalho, o que ultrapassa 6 mil reais em um mês típico, sem considerar outras gratificações.

Para entidades da área da educação, o recado implícito é o de que a farda e a disciplina valem mais, para o Estado, do que a formação acadêmica e a experiência docente.

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No Amazonas

O modelo cívico-militar, concebido e ampliado na gestão de Bolsonaro, segue ativo em vários estados, mesmo após o fim do programa federal.

No Amazonas, por exemplo, o governador Wilson Lima editou decreto em 2024 para manter e expandir as escolas cívico-militares na rede estadual, criando um programa próprio.

Hoje, o estado conta com sete escolas nesse formato em Manaus e no interior, com gestão compartilhada entre a Secretaria de Educação e forças de segurança.

Documentos técnicos do governo amazonense defendem a adoção do modelo como forma de melhorar disciplina, reduzir violência escolar e fortalecer “valores cívicos e patrióticos”, em linha com o discurso já visto em outros estados.

Críticos, porém, apontam que não há evidência robusta de melhora consistente no desempenho em língua portuguesa e matemática em comparação com escolas tradicionais, enquanto cresce a presença de policiais e militares em funções que, historicamente, cabiam a professores e pedagogos.

Entre comandos, continências e quadros corrigidos, a educação pública segue no centro de uma disputa que vai além da ortografia.

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Foto: reprodução/vídeo