Em noite de charangos, #Toadas conta a história do instrumento no boi-bumbá
Terceiro episódio da temporada contou como e quando o charango entrou na música do boi-bumbá de Parintins
Neuton Corrêa, da Redação do BNC AMAZONAS
Publicado em: 14/03/2026 às 07:36 | Atualizado em: 14/03/2026 às 08:02
Se hoje o som metálico e vibrante do charango é indissociável da toada de Parintins, isso se deve a uma trajetória que cruza os Andes, passa por São Paulo e desemboca nas águas do Rio Amazonas. No palco do #Toadas, o músico, jornalista e atual presidente do Garantido, Fred Góes, de 77 anos, deu uma aula de história sobre como esse pequeno instrumento de cordas revolucionou o ritmo que antes era restrito à voz e à percussão.
Góes relembrou que, até a década de 1980, os ensaios de Batucada e Marujada eram puramente percussivos. “Havia uma certa resistência. A geração que comandava achava que tinha que ser daquele jeito”, pontuou. Sua jornada com o instrumento começou em São Paulo, onde viveu por 20 anos. Lá, integrou grupos de música latino-americana como o Chaski e o Maichutum, sob a influência de mestres como o equatoriano Vicente Noriega e o chileno Enzo.
O pioneirismo e a gravação histórica
O charango “entrou no boi”, contou Fred, antes mesmo de chegar ao Bumbódromo. Em 1978, Fred já inseria toadas nos shows de sua banda em São Paulo. Mas o marco zero em solo amazonense envolveu o músico Silvio Camaleão. Fred revelou que a primeira gravação de charango na toada foi feita por Camaleão na composição “5×1, vai vir a 6”, registrada de forma simples em um gravador de rolo.
No evento, essa toada foi levantada pelo cantor David Assayag, que participou da roada.
No palco, o reencontro de gerações foi emocionante. Além de Fred e Camaleão, expoentes como Clevinho, Arlen Barbosa e Alex Mendes Pontes (Canto da Mata) celebraram a herança deixada.


Fred Góes enfatizou que a introdução da harmonia foi uma necessidade de sobrevivência artística. Ele relembrou o choque ao ouvir gravações desafinadas de festivais passados e como, em 1994, o Caprichoso consolidou o uso da “meia banda” na arena com charango, violão e teclado. “O conhecimento tem que ser repassado. Na arte não existe ciúme”, finalizou o mestre, sob os aplausos de um Largo São Sebastião que agora entende melhor a origem de cada nota que faz o coração bater no ritmo do bumbá.

Fotos: Euzivaldo
