Amazônia perde grandes áreas contínuas de floresta em três décadas

Estudo do MapBiomas aponta alta de 332% na fragmentação florestal no país. Aponta avanço da degradação e redução de 82% dos fragmentos.

Amazônia perde grandes áreas contínuas de floresta em três décadas

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 13/05/2026 às 05:44 | Atualizado em: 13/05/2026 às 11:31

A Amazônia registrou um aumento de 332% no número de fragmentos de vegetação nativa entre 1986 e 2023, segundo dados inéditos divulgados pelo MapBiomas.

A fragmentação da vegetação nativa é o processo em que grandes áreas contínuas de floresta ou de vegetação natural são “quebradas” em partes menores e isoladas. Isso acontece, principalmente, por causa do desmatamento, da abertura de estradas, da expansão agropecuária, da mineração e do crescimento urbano.

Em vez de uma floresta extensa e conectada, passam a existir pequenos blocos separados entre si por áreas degradadas ou ocupadas pela atividade humana.

Dessa forma, o levantamento mostra que a Amazônia também sofreu uma drástica redução no tamanho médio desses fragmentos — de 2.727 hectares para apenas 492 hectares no período —, indicando avanço acelerado da degradação ambiental na maior floresta tropical do planeta.

Na prática, isso significa que áreas contínuas de floresta vêm sendo divididas em parcelas cada vez menores e mais isoladas por fatores como desmatamento, expansão agropecuária, abertura de estradas e urbanização.

O estudo integra a atualização do módulo de Degradação do MapBiomas e revela que a fragmentação da vegetação nativa cresceu 163% em todo o Brasil nas últimas quase quatro décadas, passando de 2,7 milhões para 7,1 milhões de fragmentos. Os dados completos estão disponíveis na plataforma https://plataforma.brasil.mapbiomas.org/.

Redução da biodiversidade

De acordo com o pesquisador do Ipam e coordenador do módulo de degradação do MapBiomas, Dhemerson Conciani, quanto menor o tamanho dos fragmentos, maior a vulnerabilidade da vegetação nativa.

Assim, a fragmentação reduz a biodiversidade, aumenta o efeito de borda e dificulta a circulação e recolonização de espécies da fauna e flora.

Desse modo, os dados mostram que Amazônia e Pantanal lideraram o avanço da fragmentação no país. Enquanto o Pantanal registrou crescimento de 350% no número de fragmentos, a Amazônia aparece logo atrás, com 332%.

“Quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação. Assim, O tamanho dos fragmentos de vegetação nativa tem relação direta com a quantidade e variedade da fauna e da flora presente. Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem: aumenta o risco de extinções locais dessas espécies, diminui a chance de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda. Em suma, esses fragmentos vão perdendo a diversidade de espécies”, detalha Dhemerson Conciani.

Distúrbios de dossel

Além da divisão crescente da floresta, o MapBiomas identificou outro sinal preocupante: o avanço dos chamados distúrbios de dossel na Amazônia Legal.

O fenômeno ocorre quando a camada superior da floresta sofre alterações provocadas por secas extremas, incêndios, ventos e corte seletivo de madeira, abrindo clareiras e comprometendo a integridade da cobertura florestal. Entre 1988 e 2024, pelo menos 24,9 milhões de hectares da Amazônia Legal apresentaram algum sinal desse tipo de degradação.

Somente entre 2019 e 2024, a área afetada por distúrbios de dossel chegou a 2,1 milhões de hectares. O ano de 2016 concentrou o maior registro da série histórica, com cerca de 4 milhões de hectares impactados.

O estudo também aponta o corte seletivo de madeira como uma das principais causas da degradação florestal na Amazônia Legal. O MapBiomas identificou 9,7 milhões de hectares com indícios dessa atividade entre 1988 e 2024. Desse total, 83,5% estão concentrados nos estados do Mato Grosso e Pará.

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Cerrado e Mata Atlântica

O problema também afeta outros biomas brasileiros. No Cerrado, por exemplo, a fragmentação está fortemente ligada ao avanço da agropecuária sobre áreas nativas. Já na Mata Atlântica, historicamente muito desmatada, os remanescentes florestais ficaram extremamente pulverizados e isolados ao longo das décadas.

Segundo o MapBiomas, o aumento da fragmentação é um indicador importante de degradação ambiental porque mostra que não basta apenas medir o desmatamento total: mesmo quando a floresta permanece em pé, ela pode estar ecologicamente comprometida pela perda de conexão entre os remanescentes naturais.

Ainda, de acordo com o estudo, até 24% da vegetação nativa remanescente no Brasil está exposta a pelo menos um vetor de degradação, o equivalente a cerca de 134 milhões de hectares.

Monitoramento da degradação

Os pesquisadores destacam que o monitoramento da degradação complementa os dados tradicionais de desmatamento, permitindo identificar impactos ambientais antes da perda total da vegetação.

A plataforma atualizada do MapBiomas permite análises detalhadas por estados, municípios, bacias hidrográficas e áreas protegidas, e deve servir de base para políticas públicas de conservação e restauração ambiental. O Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 no âmbito do Planaveg e de acordos internacionais ligados ao clima e à biodiversidade.

Números do estudo

• – Fragmentos de vegetação nativa no Brasil passaram de 2,7 milhões para 7,1 milhões entre 1986 e 2023 (alta de 163%)
• – Tamanho médio dos fragmentos caiu de 241 hectares para 77 hectares (redução de 68%)
• – Até 24% da vegetação nativa brasileira está exposta a algum vetor de degradação
• – Na Amazônia Legal, 24,9 milhões de hectares tiveram registro de distúrbios de dossel entre 1988 e 2024
• – O MapBiomas identificou 9,7 milhões de hectares com indícios de corte seletivo de madeira na Amazônia Legal

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil