As desculpas de Diego
Publicado em: 24/08/2008 às 00:00 | Atualizado em: 24/08/2008 às 00:00
Ana Célia Ossame*
Descontada a frenética propaganda dos meios de comunicação exaltando a “maravilhosa e espetacular” participação brasileira nas Olimpíadas da China, as medalhas continuarão minguadas principalmente nos esportes individuais por uma razão simples. Ao contrário dos EUA, Rússia, Alemanha, Japão e China, para citar alguns, o Brasil não investe na formação de atletas. Por isso, o pedido de desculpas do ginasta Diego Hypolito e do judoca João Gabriel deve ser desconsiderado. O Brasil é que deve desculpas não só a eles, mas à Daniela Hypólito, Daiane, Jade Barbosa, Ana Cláudia Silva, a Kettleyn Quadros, primeira mulher a trazer medalha no judô e a todos os demais atletas que, para ir às Olimpíadas da China quase precisaram vender a alma.
A medalha do nadador César Cielo não coloca o Brasil no pódio. Ele chegou lá por mérito próprio, com investimento da família que o mantém nos EUA chorando de saudades, mas certa de que só ali poderia transformar o talento dele em medalha do mais brilhante metal. Felizmente, deu certo. Enquanto isso, gastam-se fortunas com “fenômenos” e “super-craques” de futebol criados por obra e graça dos apresentadores de televisão pagos para vender produtos de qualidade duvidosa, haja vista o apático desempenho da seleção masculina não só nas Olimpíadas, mas em outras disputas. Já as meninas do futebol dão show de bola, embora muitas delas sem direito sequer a um salário decente. A prova disso é que a mãe de uma das melhores jogadoras em campo, Formiga, assistiu ao jogo da filha numa televisão emprestada pela vizinha.
Quando a Jade franze a testa antes de executar sua apresentação, demonstra a falta da segurança dela e de outros atletas brasileiros. As meninas da ginástica ainda formam um grupo que se apóia e o Diego, que sozinho, representa o Brasil no masculino. Como aceitar o pedido de desculpas dele? Ouvindo o canto da sereia dos “comentaristas” esportivos, eram certas as medalhas dos ginastas. Mas a falta de técnica apurada, obtida após muito treino sob acompanhamento de especialistas é vital. Os vôos deles desafiaram não só a força da gravidade, mas o País que só sabe aplaudi-las nas competições internacionais. Só lembra deles nesses momentos. A queda era previsível para mostrar ao Brasil que só aplauso e torcida não basta. É preciso investir.
Nós, enquanto Governo, empresas e instituições financeiras, principalmente os bancos que batem recordes de lucro, é que deveríamos a eles o pedido de desculpas por não encontrarmos recursos para investir no talento representado por esse grupo, que pela primeira vez na história levou o Brasil a disputar medalhas. Para não ir longe, no Amazonas, temos uma Vila Olímpica que já recebeu atletas olímpicos. Mas de lá o velocista amazonense Sandro Viana foi praticamente enxotado. Agora, com chances de ganhar medalha, poucos sabem que ele treina em São Paulo, sem apoio oficial. Mas se ganhar, certamente não faltarão “autoridades” para brindar a vitória pessoal do atleta com tapinhas nas costas. Ainda mais em época de campanha, quando todos os candidatos são amigos do povo. Será que algum deles sabe responder por que a Vila não rende frutos-atletas? Por que não vêm para cá os técnicos do porte dos que atendiam a atletas como Maurren Maggi, Joaquim Cruz, Zequinha Barbosa, Vicente Lenilson, Bruno Lis, Sandro Viana, Fabiana Mourer, o cubano Yoel Hernandez, Fábio Gomes Silva, Jessé Farias e Marilson Gomes aqui na Vila? Se faltam verbas para mantê-los, porque não pedi-las das empresas do Distrito Industrial detentoras de incentivos fiscais? Será que elas não iam gostar de ter o nome em destaque no uniforme desses atletas?
Antes de candidatar-se a sediar uma olimpíada, o Brasil tem que aprender a investir na formação de atletas. Tirar o foco do futebol criador de escândalos e estabelecer uma política para os esportes amadores. Não é à toa que no basquete, atletas que jogam no exterior recusaram a convocação e o time saiu mais cedo da disputa. Se o Brasil não faz nenhum esforço para tê-los aqui e prepará-los, por que só quando estão prontos teriam que servir à pátria? O amazonense Sandro Viana fechará o revezamento em Pequim, depois que o bastão, símbolo da corrida, passar por Vicente Lenilson, Rafael Ribeiro e Bruno Lins. Que ele o receba com vitória e dê ao Brasil mais do que um presente, uma lição. Para ganhar medalha olímpica ou competições internacionais, não basta só vontade e sonho. É preciso despertar e descobrir atletas, treiná-los técnica e psicologicamente para as disputas. Poupá-los o mínimo do esforço de mendigar patrocínio. Do contrário, caso ganhemos o direito de sediar a olimpíada de 2016, seremos apenas levantadores de bandejas com medalhas a serem entregues aos países que sabem fazer a tarefa de casa nessa área.
*Jornalista
