Poeta diz que até a academia discrimina o imaginário amazônico

Publicado em: 21/08/2008 às 00:00 | Atualizado em: 21/08/2008 às 00:00

O poeta e pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) João de Jesus Paes Loureiro (foto) disse, em entrevista a Wilson Nogueira, que a academia ainda é preconceituosa na abordagem do imaginário regional, e que essa postura acentua o estigma sobre o modo de viver e de compreender o mundo das populações amazônicas. Os mitos e lendas amazônicos, para o pesquisador, possuem valor explicativo e estético idêntico aos da mitologia grega. A diferença entre ambos está no fato de que os valores do mundo grego impressionam a academia, enquanto as formas de pensar e agir das populações amazônicas, principalmente as dos índios, são rejeitadas ou tratadas de modo pitoresco por professores, pesquisadores e intelectuais. Paes Loureiro é professor de Estética, História da Arte e Cultura Amazônica, na UFPA, Mestre em Literatura e Semiótica, pela PUC/Unicamp, e Doutor em Sociologia da Cultura, pela Sorbonne, Paris, França. Confira a entrevista:

Em que sentido o imaginário regional pode contribuir para o reconhecimento de uma cultura amazônica?

Esse caráter tão presente na vida amazônica decorre de um sistema de vida em que a relação do homem com a natureza propiciou essa necessidade de criar, pelo seu imaginário, novos mundos e novas realidades. O imaginário povoa esses mundos de deuses, mitos e lendas, e, ao mesmo tempo, de entidades de uma significação tão rica em modos de compreender a realidade e de interpretar o mundo por meio de uma reflexão alegórica. Essa particularidade na relação do homem com a natureza, com a solidão, com as distâncias, com os rios das águas doces correntes, deu, para o acervo do imaginário que temos, uma condição exemplar de intermediação entre o real e o não-real, o que é preenchido pelo imaginário como uma outra forma de realidade. O que ocorre é que essa mitologia toda, essa simbologia que decorre da nossa cultura, não é de um caráter propriamente filosófico, de um caráter propriamente místico ou de um caráter normativo. O que eu percebo é que todas essas formulações do imaginário, esses seres fantásticos, essa realidade fantástica, são construídos por via da aparência, por via do que elas conseguiram como luminosidade, como forma. Ou seja, são exatamente qualidades que dotam os objetos de uma dimensão poética e estética. O Boto, a Iara, as Mães-d’agua, a Mãe do Vento, para citar alguns exemplos simples… em todos esses casos, o que se tem é uma configuração sensível de algo que impressiona pela beleza e não pelo caráter de religiosidade, de normatividade ou de dimensão reflexiva sobre a realidade. Então, o nosso imaginário se configura e estimula essa dimensão poética nos produtores e nos receptores, tanto que a Amazônia sempre é encarada por toda a sua história, predominantemente, como uma dimensão do imaginário e como uma força poética desse imaginário capaz de poetizar todos os discursos. Noto que essa riqueza do ethos da cultura amazônica – e essa riqueza de significações nos produtos desse imaginário – não tem tido a atenção reflexiva e interpretativa que ela merece e que a riqueza que ele contém propicia. Ultimamente, tenho imaginado que, talvez, isso seja mais um dos efeitos perverso desse preconceito, muitas vezes na academia, muitas vezes na cultura urbana, esse preconceito diante da cultura originária da região, da cultura que vem do ribeirinho, que vem do índio especialmente.

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