As preocupações da cacique

Publicado em: 22/10/2008 às 00:00 | Atualizado em: 22/10/2008 às 00:00

Wilson Nogueira*

Olímpia Pereira Faria, 34 anos, (foto) mãe de cinco filhos, freqüentará as teses acadêmicas e os livros de história da Amazônia daqui a alguns anos. Há doze meses, ela assumiu o posto de cacique da aldeia ticuna Água Limpa, localizada na margem do rio Solimões, próximo à cidade de Tabatinga (AM). Desde então, age dentro e fora da comunidade em favor de 150 pessoas sob a liderança dela. A função de líder não é comum às mulheres, também, nas sociedades indígenas. A outra cacique em atividade, entre os ticunas, a segunda maior população indígena do Brasil, é Janete Ticuna, da aldeia Islândia.

Com uma filha no colo, Olímpia transita entre os participantes do seminário Realidade socioambiental na fronteira Brasil/Colômbia/Peru, na casa Frei Ciro, em Tabatinga. O evento, promovido pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), na semana passada, reuniu líderes indígenas dos três países amazônicos. “É duro ser cacique porque temos que dar conta da casa, dos filhos e ainda trabalhar para toda a comunidade”, explica. Sem cerimônia, revela que assumiu a direção da Água Limpa em razão da fraqueza do antecessor.

Os lagos e as florestas de Água Limpa estavam sob depredação desenfreada. Ninguém respeitava o cacique anterior. “Chamei a Polícia Federal e fiz a lei ser cumprida. Toda vez que nossa reserva é invadida eu chamo os agentes federais”, conta a nova cacique. Mas Olímpia atua em outras frentes. Na aldeia, ela retomou os tradicionais mutirões para realizar tarefas mais complexas. Na cidade, percorre os órgãos oficiais em busca de serviços e equipamentos públicos.

“Não tínhamos barcos. Reuni o pessoal, cortamos madeira e construímos o barco. Depois, solicitei o motor da Prefeitura de Tabatinga. Só depois de muita luta conseguimos o motor”, disse. Para a cacique, sua pior tarefa é convencer os gestores públicos de que os índios necessitam de serviços de saúde, de escolas, de transporte e de estradas para escoar produtos destinados ao mercado. “Nunca desisto de ir à Prefeitura atrás de um benefício para a minha aldeia. Insisto até consegui-lo”, ensina.

Nesse momento, Olímpia luta para impedir que o lixão de Tabatinga despeje chorume no igarapé Takana, que corta as terras ticunas nessa região. As águas do Takana deixaram de ser límpidas há muito tempo, e o igarapé corre risco de se tornar um esgoto a céu aberto. Aliás, esse é um problema que aflige comunidades urbanas e ribeirinhas amazônicas. O lixo e os dejetos domésticos são jogados diretamente nos mananciais.

A situação de quem mora na beira dos rios é a pior possível. Não bastasse a escassez de peixes, provocada pela pesca comercial, agora falta até água potável segura. “A gente bebe esse água porque é obrigada. Mas a gente sabe que ela está contaminada e que causa doenças”, afirma Olímpia. No plenário, o líder indígena Gilson Maioruna informava que caciques do rio Javari haviam decidido retornar à cabeceira dos rios, para fugir das doenças do branco. “Nas cabeceiras, as águas ainda estão limpas”, explicou.

Olímpia, com a criança no colo, ouve os parentes atentamente. “Tá vendo? A vida dos índios é dura. Se não agirmos agora, o futuro será pior”, comenta, enquanto acaricia o rosto da filhinha.

Ela já está na história

* Sociólogo, jornalista e escritor

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