O árabe como um parente distante!
Publicado em: 20/10/2008 às 00:00 | Atualizado em: 20/10/2008 às 00:00
É difícil imaginar a literatura de Milton Hatoum (foto) sem a presença da cultura árabe. De todos os escritores amazonenses, esse é o que mais gosto. Não somente por sua poética, mas principalmente pela força humana que dá aos seus personagens. Esses, sem nunca tê-los imaginados, parece que sempre os conheci, que convivo com eles e pelos quais alimento um amor profundo.
Milton usa os recursos literários aos quais se dedicou a estudar antes de iniciar a carreira com destreza, quando ainda era professor universitário. Descendente de libaneses, a força humana talvez tenha sido um encontro em sua própria história. Assim, o escritor passou a fazer parte da tradição literária do País, a ponto de tornar-se matéria-prima para a compreensão da percepção que a sociedade faz sobre imigrantes de “um certo oriente”.
Apaixonado por literatura, o pesquisador Valter Luciano Gonçalves Villar percorreu um caminho teórico que trespassa autores de toda história brasileira para depois focar-se em duas obras para produzir o trabalho “A Presença Árabe na Literatura Brasileira: De Jorge Amado a Milton Hatoum”, como dissertação para o Mestrado em Literatura Brasileira da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Graduado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Villar realizou sua pesquisa com apoio da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e a orientação da professora Wilma Martins de Mendonça, coordenadora do grupo de pesquisa “O Brasil em sua Literatura: Memória e Identidade Cultural”, da UFPB.
Grandes nomes da literatura, como Machado de Assis, Castro Alves, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, se referiram, às vezes, assiduamente, como o escritor Jorge Amado, à presença do imigrante árabe em suas letras poéticas. Mais a fundo, encontrou insinuações da presença árabe desde as cartas inaugurais, como a do escrivão Caminha e a do Piloto Anônimo, passando pelo padre José de Anchieta, os colonizadores Gabriel Soares de Souza e Pero de Magalhães Gandavo, além do barroco Gregório de Matos.
Em Jorge Amado, o árabe está em vinte e quatro romances, dado que foi definitivo para o autor delimitar as obras que pretendia estudar. “Gabriela, cravo e canela” foi escolhida pelo fato de ser o primeiro romance nacional em que um personagem árabe, no caso o Nacib, nos é apresentado como protagonista. “Dois Irmãos”, a segunda escolha, pela força poética e humana que representa o personagem Halim. Posteriormente, constatou que havia muita ligação entre esses dois personagens.
Villar descobriu que nossos poetas, escritores nacionais, olham para o árabe como um brasileiro, como nosso irmão, como um parente que chegou de terras distantes. É uma empatia geral!
Par ele, esse discurso estereotipado é produto da mídia afiliada aos interesses europeus e estadunidenses, como se mostra, por exemplo, a Globo, a Veja, o Estadão, entre outros. Mesmo os estigmas mais comuns aos árabes, como a avidez no comércio, são retratados positivamente por esses dois autores.
Em Jorge Amado, o comércio dos árabes, a mascatearia, é comparado à magia, quando os mascates, para venderem, encantam as pessoas com sua atenção, seu respeito, seu interesse pelo outro, causando em seus fregueses espécies de deslumbramentos diante das fabulosas e encantadoras histórias que os árabes contam aos seus clientes. Em Milton Hatoum, o comércio é visto como uma oportunidade de se fazer relações de amizade, como várias vezes demonstra o personagem Halim.
O estudo mostra ainda que Jorge Amado foi o pioneiro, o antecipador dessas questões identitárias, especificamente árabe. Soube como ninguém, dizer o quanto o árabe é brasileiro e o quanto o brasileiro simpatiza com esses parentes distantes. Mostrou o modo amoroso dos árabes, sua psicologia, sua forma de lidar com a tristeza, com a alegria, sua religiosidade, como nos exemplifica o fabuloso Fadul, personagem de Tocaia Grande, e seus esforços em se aclimatar às terras brasileiras, suas profundas gratidões pelas terras de adoção, sua honestidade, sua brandura, enfim, todos os qualificativos positivos. Que digam os iraquianos, os libaneses, os afegãos, os palestinos, os iranianos, constantemente agredidos, caluniados e ameaçados por esses “colonistas midiáticos”, para usar uma expressão do jornalista Paulo Henrique Amorim.
Trilhando esse mesmo caminho, encontramos nos dias atuais o melhor de nossa tradição literária: o escritor Milton Hatoum. Respeitando a opção estética amadiana, Milton enriquece esse olhar sobre o árabe. Na sua prosa, observamos o quanto seu estilo, sua estética, fala a verdade, sem ter a pretensão de falar a verdade. Universaliza o regional de maneira tão esmerada que olhar, por exemplo, para o drama do árabe Halim, é olhar para o drama de qualquer cidadão do mundo. A plasticidade, a mistura de sentidos, o uso adequado de certas expressões regionais, enfim, um conjunto de elaborações formais que fazem dele um dos escritores mais respeitado no universo literário, não só no Brasil, como em todo o mundo, como atestam as variadas traduções de seus romances.
Ao viver o mundo literário de dois mestres, Villar foi posicionado e reposicionado no local e no universal. No decorrer do trabalho, não deixou de comover-se. Associou sua vida ao tema lembrando-se de conhecidos, vizinhos e amigos no município de Itacoatiara, onde viveu na juventude, especialmente, de alguém parecido com o personagem Halim, de Dois Irmãos, com quem diz estar em dívida de gratidão.
Em tempos de guerras étnicas e crises financeiras, o trabalho de Villar traz um novo, sensível e delicado aprofundamento teórico sobre a questão árabe, fundamental para a compreensão do papel da identidade, dos deslocamentos e comovente capacidade humana de recomeçar. Uma grata surpresa!
* A autora é jornalista

