Eco a preço de banana
Publicado em: 05/02/2009 às 00:00 | Atualizado em: 05/02/2009 às 00:00
Quase não acreditei quando vi na vitrine de uma grande livraria de Brasília o mais recente livro de Umberto Eco – “A misteriosa chama da rainha Loana”, Editora Record, 2005, ao preço de R$ 14,90. A promoção garantia que a volumosa obra – 447 páginas –do mestre da semiótica e autor do renomado “O nome da rosa” (1980) custava R$ 49,90. Este é o preço comum de qualquer desses livros de autoajuda, pseudoeducativos/reflexivos que vendem como água ou banana na feira da Panair.
Entrei na loja e vi uma pequena pilha de “Loana”. Fiquei a me perguntar: por que será que o livro de um escritor tão famoso e tão importante custava tão pouco, quase acessível a qualquer leitor contumaz ou em potencial?
As respostas vieram com hipóteses do tipo: o professor-ensaista-escritor italiano é mesmo muito difícil de ser assimilado; ou, a editora compreendeu, enfim, que livro bom e barato é livro vendido – assim como qualquer outro produto cultural/intelectual ou mesmo material. Ou ainda o famoso encalhe, quando a mercadoria “boia” (sem acento mesmo pela nova regra do acordo ortográfico) na prateleira e o vendedor tem que passar adiante para não ter prejuízo, sendo obrigado a baixar o preço. A questão é que com (bons) livros quase nunca há xepa.
Saí da livraria sem comprar o Eco que estava a preço de banana, valendo-me da expressão popular para significar um produto barato, mesmo sabendo que, com a carestia atual, até esta deliciosa fruta tropical está pela hora da morte. De antemão, resisti à tentação de comprar (livros) por estar mergulhado na obra do alemão Friedrich Nietzsche (“Humano, demasiado humano”) – nada fácil de entender e absorver toda a sua eloqüência misturada à “arrogância” para mudar o mundo e o ser humano a partir de si mesmo.
Outro motivo de não ter comprado “Loana” foi porque também estou propenso a imergir na obra de Edgar Allan Poe, o norte-americano considerado o pai do romance policial e autor de “Os assassinatos da rua Morgue”, “O corvo” (poema) , “Histórias Extraordinárias” e tantas outras obras-primas. A curiosidade por Poe veio ao ler um artigo literário sobre o seu bicentenário de nascimento, ocorrido em 19 de janeiro de 2009.
Quem disse que esses pseudomotivos me aquietaram ou diminuíram o desejo de possuir “A misteriosa chama da rainha Loana” tanto pelo preço (R$ 14,90) quanto pelo valor intelectual da obra? Mas, os questionamentos em saber por que aquele Umberto Eco estava tão barato não sumiam da minha mente. No dia seguinte, estava na livraria. Percebi que a pilha de livros havia reduzido e logo me apressei pra pegar meu exemplar.
Antes, porém, perguntei ao vendedor: Por que esse livro está na prateleira das promoções e é um dos mais baratos? Laconicamente, o livreiro me disse que a editora tinha feito uma negociação no preço do exemplar e a rede de lojas comprou todo o estoque em âmbito nacional. Portanto, verifique se na sua cidade há uma livraria que está vendendo Umberto Eco a R$ 14,90, acho que até mais barato que um cacho de bananas.
Nem sei de vou começar a lê-lo, agora, diante dos “compromissos” com os outros monstros já citados, por isso, não posso adiantar, ao caro leitor-internauta, o conteúdo da obra sob a minha percepção e entendimento dela. Mas, adianto aqui o que diz o poeta-ensaísta-tradutor e professor de literatura italiana na pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marco Lucchesi, na orelha de “Loana”.
“Depois de Baudolino (2000), Umberto Eco lança um romance cheio de calor e lembranças, de suspiros e saudades. Decidiu assumir a paisagem de sua geração e, a partir dessa luz, num vasto painel dos anos 1930 e 1940, do brevíssimo e sobressaltado século XX. O protagonista, Yambo, é um senhor de meia-idade, provido de grande cultura, que trabalha com livros raros, em Milão. Após salvar-se de uma doença grave, Yambo perde uma parte da memória afetiva, ou biográfica. Para tentar recuperá-la, passa um longo período nas montanhas do Piemonte, na casa que fora do seu avô. As lembranças reaparecem – com idas e vindas – quando se depara com um acervo que lhe marcou a infância: jornais, discos, quadrinhos – um imenso parque (ou cemitério) de objetos. Toda uma semiologia que leva aos tempos do fascismo e às portas da segunda grande guerra. Que o leitor descubra todo o percurso de Yambo, e que reconheça imagens e canções, que marcaram parte essencial da história da Itália e do mundo”.
Vida e obra
Nascido em Alexandria, Itália, em 1932, Umberto Eco construiu sólida carreira como professor de semiótica na Universidade de Bolonha. Ensaísta de renome mundial, dedicou-se a temas como estética, semiótica, filosofia da linguagem, teoria da literatura e da arte e sociologia da cultura. Entre suas obras ensaísticas destacam-se “Obra aberta” (1962), “Apocalípticos e integrados” (1964), “A estrutura ausente” (1968), “As formas do conteúdo” (1971), “Tratado geral de semiótica” (1975), “Semiótica e filosofia da linguagem” (1984), “Seis passeios pelos bosques da ficção” (1994), “Kant e o ornitorrinco” (1997), “Sobre a literatura” (2002) e “A história da beleza (2004). Sua obra “Como se faz um tese” (1977) é de forte relevância para aqueles que estão se iniciando na pesquisa bibliográfica. A obra une a perícia de um pesquisador sob a gerência de um professor que conhece as dificuldades dos alunos.
Em 1980, Eco publicou seu primeiro romance, “O nome da rosa”, que virou filme de grande sucesso com Sean Connery (o monge franciscanoWilliam de Baskerville) e Christian Slater (o noviço Adso von Melk). Posteriormente, o mestre italiano publicou “O pêndulo de Foucault”, em 1988; “A ilha do dia anterior” (1994) e “Baudolino”, em 2000.
* O autor é jornalista correspondente do jornal A Crítica em Brasília.

