A força do diálogo

Publicado em: 04/02/2009 às 00:00 | Atualizado em: 04/02/2009 às 00:00

Wilson Nogueira*

“Só vem ao fórum quem gosta de dialogar!”. A frase veio de um tumulto formado no centro da tenda que abrigou os debates sobre os 50 anos da vitória da revolução cubana, no Campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém (PA), no dia 29 de janeiro. O Fórum Social Mundial realizou-se no período de 27 de janeiro a 1.º fevereiro, com a participação de mais de 100 pessoas de 141 países.

O autor da frase acalmou o interlocutor dele, que se queixava da falta de condizente às centenas de pessoas que esperavam a palestra da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. A ministra havia chegado naquele momento e a platéia se espremia para vê-la do melhor ângulo possível. Sequer vi as duas pessoas que conversavam em voz alta sobre desconforto generalizado. Suspeito que a providencial frase esfriou o ânimo dos que, por acaso, planejam deixar o lugar.

A conversa com a ministra e outras personalidades femininas durou ao menos quatro horas. A platéia xingou, aplaudiu e suou, mas suou mesmo! Ninguém arredou o pé da tenda dos revolucionários cubanos. O evento encerrou-se como havia começado: acochado para os que assistiram e não menos sufocante às que palestraram. Mas, pelo visto, o diálogo fez bem para todos.

Essa é a minha primeira participação no FSM, mas estou certo de que o autor da frase é um veterano no evento. Somente o esforço do diálogo pode superar as dificuldades na elaboração e realização de um encontro de pessoas, em escala global, que pretendem tornar o mundo mais justo, mais solidário e mais democrático. O FSM de Belém realizou-se em condições precárias em infra-estrutura e em organização. Mas isso não desmotivou a grande maioria dos participantes.

Ouvi muitas avaliações do tipo: “Faltou apoio de toda ordem, mas esse foi o fórum com maior participação popular”. Realmente, uma multidão participou da passeata de abertura, na tarde e noite do dia 27. Quem não gostou dessa demonstração de força popular foram os motoristas de táxi e os devotos de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará. “Será que esse pessoal vai colocar mais gente na rua que a padroeira?”, questionou um taxista, que também resmungava contra o engarrafamento do trânsito no trajeto e no entorno da passeata.

O certo é que, no final das contas, o FSM de Belém cumpriu a missão de alertar a humanidade para a necessidade, urgente urgentíssima, de um outro mundo possível: sem desigualdade social e sem agressão ao meio ambiente.

A Amazônia, por sua vez, demonstrou, por meio das suas populações tradicionais, que pode e deve participar desse diálogo, porque ela é vítima da perversidade do capitalismo de terra arrasada e, ao mesmo tempo, protagonista de experiências que atendem às atuais necessidades de reequilíbrio do Planeta.

Somente o diálogo viabilizará as conquistas do presente e do futuro.

*Jornalista, sociólogo e escritor.

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