Meu louco desejo

Publicado em: 18/04/2009 às 00:00 | Atualizado em: 18/04/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*

Assim que seo Flávio me mostrou a foto de sua filha senti o mesmo desejo que o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez sentiu aos 90 anos de idade: o de poder me dar de presente uma noite de louco amor com aquela linda morena. A imagem ainda espelhava o verniz da fotografia tirada diante do Muro de Berlim.

O local onde posou era tomado de pichações. Mas havia uma frase em destaque: “Berlin Wird MAUERFREI”. No verso, ela explicava à família: “Papai, essa frase significa ‘Berlim ficará livre do muro’”. A filha de seo Flávio vive na Europa desde os 17 anos de idade. Foi atrás de outra amiga que havia deixado a cidade meses antes.

Soube de tudo isso porque o seo Flávio me contou a história dele e de sua filha sem nenhuma cerimônia. Conheci ele a bordo do articulado 600 (Jorge Teixeira-Centro). Ele carregava uma sacola branca de alça, daquelas que se compra nas feiras. Usava uma camiseta do Milan e cobria a cabeça com um boné, com escudo escrito a palavra ENGLAND. Tão logo se sentou ao meu lado, ele perguntou, com um leve sorriso:

– O senhor vai para o Jorge Teixeira?
– Não, vou ficar no Aleixo.
Depois entrei na conversa:
– O senhor vem de onde?
– Do Centro.
Como notei que ele queria conversar, estiquei o diálogo:
– O senhor é de Manaus?
A resposta dele, para mim, foi uma aula.

Seo Flávio se criou no seringal Jaburu, no rio Purus, um lugar que pertencia ao Município de Canutama e hoje se chama Município de Tapauá. Nasceu em 1936, quando a borracha estava em crise e viveu a infância em pleno vigor do último surto do látex. Conta isso como se estivesse narrando um filme.

Seo Flávio catou lenha para vender aos navios a vapor. Aliás, não se reporta a eles como navios a vapor. Chama-os, ainda hoje, de navios de canos, em referência às enormes descargas que passavam por aqui, deixando a fumaça e a cultura européia e retornavam levando o sangue das seringueiras e o leite sugado dos seringueiros.

Passei alguns segundos pensando nas histórias, quanto ele insiste:
– O senhor é guarda-de-segurança?
Eu sorri, querendo identificar em mim o que me faz parecer um guarda, mas concordei com ele:
– Sim, sou segurança. E o senhor? Parece que tem viajado muito: está com camisa italiana e boné inglês!

– Não, minha filha que mandou da Europa, disse-me com um orgulho sem igual.

Foi aí que ele começou a me falar de sua filha. Antes, porém, mexeu na sacola que trazia. Ao revirá-la, observei que carregava ali vários pacotes de militos e algumas caixas de Trident. Encerrou a busca tirando uma fotografia e disse:

– Essa é minha filha!
Eu, sinceramente, não resisti e comentei: “É uma linda morena, seo Flávio!”

Tags