107 leituras!
Publicado em: 22/07/2009 às 00:00 | Atualizado em: 22/07/2009 às 00:00
Prenez soin de vous (Cuide de vós) foi o título da carta de rompimento de um namoro de sete anos que Grégoire Boullier escreveu para Sophie Calle, aquela que fez valer a máxima de que pior do que uma mulher ressentida, só um homem humilhado. E foram 107 vezes que essa humilhação ocupou a cabeça do escritor. Desiludida, a artista conceitual francesa mais importante da atualidade pediu que diversas mulheres interpretassem a tal carta do seu namorado escritor para uma exposição, revelada na Bienal de Veneza de 2003. A rigor, transformou o título da carta em tema de obra de arte.
Advogada, médica, atriz, cantora, pianista, bailarina, cozinha, palhaça, profissionais outras somaram-se até fechar o círculo em torno da carta. Algumas dóceis, outras bravas, sempre brutais. “107 terríveis vezes”, reclamou Grégoire durante o reencontro público com a ex-namorada na Festa Literária de Paraty (Flip), com quem dividiu uma mesa de discussão só para maiores.
Ela, a bela artista. Ele, mais uma vez “O convidado surpresa”, título do livro que lançou quase ao mesmo tempo em que a exposição alcançou o ápice do sucesso na França. Surpresa mesmo foi encontrar esse escritor inúmeras vezes caminhando em ruas feitas para mim, com um sorriso cortado por um cigarro nos lábios, com leves sinais de embriaguez.
Descobrir Grégoire denuncia porque Sophie quis vingar-se. “O convidado surpresa”narra os acontecimentos em torno do primeiro encontro com Sophie. Como ritual, a artista realizava uma festa de aniversário em que convidava o número exato de pessoas correspondente à sua idade, mais uma que representaria o ano que estaria por vir. Cada linha sem parágrafos do livro que se lê em poucos fôlegos não mostram nada do cenário, mas encadeiam os pensamentos e sentimentos tidos e vividos naqueles momentos.
A partir dele, me perguntei a respeito da exploração da intimidade com finalidades artísticas para perceber que meu questionamento pouco importava, já que a arte nunca é sobre o público ou o privado. A arte é sempre sobre a interioridade de um sujeito. Por isso mesmo, entre a arte e a vida, escolheria a segunda. Nem ele, muito menos Sophie são vítimas de seus trabalhos.
Amante, escritor, jornalista, andarilho. Grégoire é um sujeito que entrou para a minha vida como um indivíduo capaz, inclusive, de reconhecer-se a si próprio como alguém. Ao ler a carta, comoveu-me como ele admitia amar três outras pessoas além de Sophie, sendo, por isso, incapaz de oferecer fidelidade. Coloquei-me a pensar se seria capaz do mesmo: reconhecer e admitir tal circunstância. Já sei, porém, que ele tem muito a me ensinar.
“Não importa quem, somos personagens do romance de nossa própria existência.”
Grégoire Boullier
*Jornalista, mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia.

