Turnê pelos igarapés de Manaus
Publicado em: 15/06/2009 às 00:00 | Atualizado em: 15/06/2009 às 00:00
Sugiro que a Prefeitura promova uma turnê com industriais, empresários da construção civil, comerciantes e consumidores pelos igarapés de Manaus antes da vazante. Constatarão o óbvio: a morte das águas por asfixia provocada por lixo industrial e doméstico. Será impossível não perceber que somente um compromisso de não agressão à natureza entre os diversos segmentos sociais evitará a agonia dos igarapés e dos seres que dependem deles, como peixes, répteis, aves, plantas e gente. No final, em solenidade transmitida pela televisão, todos assinariam um termo de ajuste de conduta em defesa da vida.
Os gestores públicos, fabricantes de embalagens plásticas, de pneus, de latarias e empresários da construção civil preferem culpar os pobres pela sujeira a reconhecer que também participam da destruição à natureza. É mais cômodo argumentar contra os subempregados e desempregados que ocupam as margens dos igarapés. Eles chegaram – devagarzinho ou em levas –, montaram suas palafitas e fincaram raízes. Mal educados, atiram na rua e nas águas o plástico e a lataria que embalam alimentos. O mesmo destino tem os dejetos e a água servida que produzem.
Essa história empurra ainda mais o pobre para o subterrâneo social. Que destino cruel é esse: além de pobres, ainda são imundos! A é retratada no inchaço demográfico que se acentuou a partir da década de 1970, com a implantação da Zona Franca de Manaus. Milhares de pessoas migraram para Manaus em busca de emprego. Umas se acomodaram nas margens dos igarapés. Outras derrubaram a floresta do entorno urbano e criaram novos bairros de barracos improvisados. O exército de reserva de trabalhadores, necessário ao empreendimento industrial, formou-se, sem as mínimas condições de saneamento básico, nas bordas das ilhas de riqueza.
No item qualidade de vida, Manaus também é uma cidade do “sem”: sem rede de esgoto, sem coleta e sem tratamento adequado do lixo, sem transporte coletivo decente, sem parques e praças com equipamentos de uso público, sem planejamento público… É evidente que esse quadro perverso e doentio nega a existência da própria cidade como um lugar da cidadania. Os pobres sofrem a maior consequência da ausência da cidade. Sobre eles caem todas as culpas pela insalubridade e insanidade do espaço público degenerado. Impõe-se sobre os ombros dos que se alojam no arremedo de cidade o maior peso de preconceito e negligência com a qualidade da vida urbana. Essa postura é abominável, pois o bem-estar coletivo é resultado de compromissos sociais compartilhados.
Onde andavam os gestores da cidade que não evitaram a invasão dos igarapés? Responderão os que estão de plantão: as palafitas são heranças malditas do passado. Ouve-se, de modo recorrente, essa desculpa esfarrapada. A necessidade de corrigir o incorrigível chegou ao cúmulo de a transformação dos igarapés em córrego ser a melhor solução para limpar a imagem do centro da cidade. Na periferia, a derrubada de árvores e a ocupação dos igarapés se multiplicam a cada eleição a espera dos Prosamins, condutos de entrada e saída de dinheiro de bancos interessados em financiar ações simpáticas ao meio ambiente.
As fábricas também não param de produzir pneus, vasilhames PETs, baterias para carros, sacos plásticos e outras embalagens e produtos que entulham os igarapés e rios dentro e no entorno da cidade. A Prefeitura até gaba-se de retirar milhares de toneladas de lixo das águas. Entremeadas nas águas turvas descem outras toneladas de metais pesados, dejetos e águas domésticas e comerciais sem tratamento. Sintomaticamente, há dezenas de torres de apartamento e indústrias próximas aos igarapés. O habite-se desses estabelecimentos é emitido pelo poder público. Nota-se que a degradação do meio ambiente é um ato de cúmplices que tem início entre os que detêm poder econômico-político.
Essa é uma conversa que cairia bem em uma turnê pelos igarapés de Manaus que ainda não foram aterrados nem ocupados totalmente por palafitas. Reconheço que a proposta é absurda, porém, está longe de ser do tamanho do contra-senso que aponta os pobres como únicos responsáveis pelo lixo que entope os esgotos e os igarapés. Não dá para eximir a indústria, a construção civil, o comércio e os gestores públicos da responsabilidade pelo destino do lixo que produzem. Não dá mais para vê-los fingir que não fazem parte desse problema.
*Sociólogo, jornalista e escritor.

