O bêbado tricolor

Publicado em: 02/11/2009 às 00:00 | Atualizado em: 02/11/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*

Tudo foi muito rápido. O professor aterrissou no asfalto no mesmo instante em que o ônibus fazia a curva. Sua cabeça ficou posta na direção das rodas. Ele ainda tentou se levantar, mas suas pernas o empurraram um pouco mais para frente. Para não ver a cena, vedei os dedos e levei as mãos aos olhos, que já estavam fechados.

Impotente, testemunhava tudo da parada de ônibus da Escola Estadual Santana, a poucos metros do jornal. Antes do pouso forçado, o professor olhava para frente, queria andar para frente, mas suas pernas não obedeciam. Mirava para um rumo e ia para outro. O máximo que conseguia era caminhar como caranguejo: apenas para os lados. Na verdade, apenas para o lado esquerdo. Para o direito, não dava. O muro o impedia.

Como não conseguia andar pela calçada, tentou a estratégia da aranha: andar seguro à parede. Encostou o peito nas grades de proteção da sede do Serviço Geológico do Brasil, perto da Susam, e começou a se deslocar. Deu alguns passos, mas desistiu. Ora as mãos não acertavam o ferro, ora eram as pernas que não lhe suportavam.

Depois disso, virou de costas para os ferros e escorregou. Desceu lentamente pelo gradil, sentando-se ao chão. Com a cabeça cambaleando, passou as mãos na calçada, como quem prepara a cama para dormir, mas imediatamente deu um súbito salto, frustrado com uma queda. Mas ele não desistiu.

O professor tentou novamente ficar de pé, porém, descobriu que, naquela hora, andar como os humanos era uma coisa impossível para ele. Tanto que, obstinado a chegar em casa, dobrou os joelhos na calçada, inclinou o peito para o chão, pôs as mãos na frente e, como um quadrúpede, continuou a caminhada. Mas caiu outra vez.

A cena me fez lembrar a dupla Manelito e Roberto Carlos. Eram dois carregadores do mercado central de Parintins que não se desgrudavam. Manelito era o mais velho. Andava com a cabeça baixa por causa da corcunda, que ficava ainda mais saliente com um nó que tinha no meio da costa. Roberto Carlos era famoso por atacar mulheres e sempre apanhar de suas vítimas.

Manelito e Roberto Carlos passavam de madrugada para o trabalho e só retornavam para casa no início da noite, geralmente, costurando a rua. Um dia protagonizaram um episódio que sempre me lembro quando vejo um bêbado enrascado.

Os dois retornavam do trabalho. Com dificuldade, conseguiram chegar no longo muro do cemitério, pela rua Clarindo Chaves. Roberto Carlos se encostou ao muro. Manelito ajoelhou e andou de quatro. Perto do fim do muro, Roberto Carlos começou a rir, dizendo para o colega, com a voz travada:

– Manelito, tu não vai chegar em casa. Teu joelho não vai agüentar.
Manelito, porém, reagiu:
– Eu vou chegar. Tu é que não vai. Quero ver o que tu vai fazer quando o muro acabar.

Enquanto lembrava de Manelito e Roberto Carlos, o professor continuava seu esforço. Até então nem sabia quem era ele. Aliás, nem sei se é professor. Chamo-o assim, porque um dia, antes de descer para a Ladeira do Forró (clube que funciona ao lado do jornal, às quintas-feiras), ele passou por lá e se apresentou como tal: professor de Matemática.

Pois bem, naquele dia em que ele estava embriagado, meu susto só passou depois que o ônibus cruzou o ponto onde eu estava. O professor continuava estendido no asfalto e se debatendo. Corri o mais depressa possível, porque, logo atrás, uma carreata de flamenguista estava se aproximando. O risco era maior porque o professor vestia uma camisa do Fluminense, contra o qual o Flamengo havia acabado de jogar.

*Filósofo, mestrando do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Romahs

Tags