Nelson Benzinho

Publicado em: 19/12/2009 às 00:00 | Atualizado em: 19/12/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*

Acordei hoje sonhando em escrever uma carta para Deus. Até esbocei algumas palavras. Risquei e rasguei não sei quantas folhas de papel. Queria ter com Ele uma conversa franca de filho para Pai. Depois de tanto pensar no que dizer, cheguei a escrever essas palavras:

“Querido Pai do Céu,

Ando preocupado demais. Não ficava assim quando eu era pequeno. Mas só agora percebo o motivo. Só agora descubro porque as meninas não gostavam de formar par para dançar quadrilha comigo. Também só agora descubro porque sempre ficava sem ninguém durante as festas.

O que fiz para merecer? Se contraí essa feição depois de ter nascido, não deveria estar Lhe questionando. Mas, se nasci assim, que mal teria feito eu antes de existir? Mereço ser punido sem direito à ampla defesa? Também não entendo: por que fazes uns bonitos e outros feios?

Desesperado,
passageiro-repórter.”

Fiquei a pensar nisso desde o dia em que voltei a ser chamado de feio. Já até disse aqui que me considero feio. Mas faço uma ressalva: feio, porém, gostoso. Ando assim desde a semana passada, quando o Nelson Benzinho, meu ex-colega de trabalho, na Avenida Djalma Batista, em pleno engarrafamento, passou na parada de ônibus onde eu estava e zombou de mim: “Fala, feio!”

A parada estava lotada. Poderia negar que falara comigo, mas não tinha jeito. Pensei em sair de lá de fininho, mas chamaria atenção. Olhei para um lado e para o outro e tentei disfarçar, no entanto, o único, exclusivo, magnificamente diferente, ali, era eu.

Além disso, não poderia discordar do Nelson. Afinal, Nelson Benzinho é um profundo conhecedor da beleza masculina. Afirmo isso não só porque ele consegue me classificar esteticamente. Julga até aqueles que não conhece. Chamo ele e mais dois colegas como testemunhas de um episódio que o envolveu.

Foi durante uma festa de praia. Ele levou dois amigos. Sua envergadura de quase um metro e noventa de altura o ressaltava sobre os demais toquinhos que o acompanhavam. Ficava mais visível na multidão com a sunga verde-limão que usava. Não deu outra, logo foi notado pela mulherada.

Nelson se interessou por uma delas e a conquistou. Estava animado. A moça, porém, à certa altura do baile, passou, com grande freqüência, a pedir para ir ao banheiro. A saída foi tanta que os amigos de Benzinho o advertiram: “Ela está te enganando! Vai atrás!” Ele não perdeu tempo.

Ao retornar, Nelson voltou triste. Sentou-se e não se sabe por quanto tempo ficou imóvel, com a mão no queixo. Só quebrou o silêncio, quando um dos baixinhos lhe perguntou:

– E, aí, ela estava com outro?
Constrangido, Nelson respondeu:
– Estava.
O amigo insiste:
– E ele pelo menos era bonito?

E Nelson, prontamente, cruzou as pernas, balançou os ombros e depois de arregalar os olhos e mexer a cabeça, retrucou:
– Boniiiiito!? O homem era Maravilhooooooso!

*Filósofo, escritor, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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