Vaqueiro do Caprichoso
Publicado em: 03/07/2010 às 00:00 | Atualizado em: 03/07/2010 às 00:00
Neuton Corrêa*
Enquanto esperava meu filho chegar do Festival Folclórico de Parintins, pus-me a observar os passageiros que deixavam o cais do porto e, apressados, corriam em direção à estação de ônibus da Matriz, no Centro. Entre eles, surgiu um que chamava atenção: ele estava montado em cavalinho de boi-bumbá. Era uma escultura malhada de preto e branco, com uma saia amarela, brilhosa, que escorria até o chão.
Nas costas, o cavaleiro carregava uma mochila preta; na cabeça, um chapéu enfeitado em verde-amarelo, com espelhos grudados nos lados e fitinhas que desciam da aba até suas costas; e nas mãos, ele segurava uma lança com fitas também verdes, amarelas e brancas e uma miniatura de boi-bumbá ao lado de uma bola de futebol (era uma jabulani), fixados na ponta da haste.
O vaqueiro quase nem conseguia se mover com tanto treco que trazia.
A cena me fez lembrar o amigo Romário. Na verdade, o nome dele é Messias Albuquerque, hoje diretor de uma das maiores redes de lojas do interior do Amazonas, a Green Colection. Pois bem. Quando jovem, Romário alimentava um sonho: queria entrar no Tabladão (antes não havia Bumbódromo em Parintins) de qualquer jeito, de preferência no Garantido. Tentou de tudo, até se candidatou a pajé, mas não conseguiu.
Depois que perdeu a vaga de pajé, parecia, definitivamente, haver esquecido o sonho. Mas viu a oportunidade aparecer, quando, ao andar pelos arredores do Bumbódromo, encontrou um brincante do boi Caprichoso fantasiado, mas jogado ao chão, dormindo ao lado do cavalinho e da lança. Romário não perdeu tempo. Correu atrás do responsável pela vaqueirada do bumbá, relatou o caso e se prontificou a substituir o vaqueiro.
Mas, senhores, não foi fácil. O responsável da vaqueirada sabia que o Romário era torcedor do Garantido e, na hora, vetou a participação de meu amigo, que depois aceitou todas as imposições que lhe foram feitas e conseguiu a fantasia.
O problema, amigos do busão é que, ao vestir o cavalinho e sentir o peso da lança, Romário percebeu que a festa, para ele, não seria tão boa. Para complicar a situação, o ritual de concentração exigia que ele tomasse um copo de cachaça para entrar no clima. Eu não sabia da história, mas foi ele mesmo quem me contou o que aconteceu durante a apresentação:
– Macho (assim trata conhecidos e desconhecidos), estava certo que a gente iria rodar o Bumbódromo “só” dez vezes. E eu calculei: “acho que dá”. E fui!
E eu, curioso para saber o que aconteceu, perguntei:
– E daí, Romário?
– Macho, quando agente estava para completar as dez rodadas, apareceu um monte de gente gritando, desesperada: “continua!”, “continua!”, “continua!”. Eles não conseguiam tirar uma alegoria da arena e a gente teve ficar lá e ninguém podia ficar parado.
E eu, de novo, e daí?
– Quando o cara veio falar perto de mim “continua pulando”, eu disse: “Macho, eu não aguento mais”. A aí ele gritou: “Faz isso, faz! Para pra te ver! Aqui todo mundo já sabe que tu é do Garantido”.
Meu filho apareceu no porto, fomos embora e o brincante da vaqueirada continuou lá na estação de ônibus do Centro.
*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

