Campa de barco

Publicado em: 04/06/2011 às 00:00 | Atualizado em: 04/06/2011 às 00:00

 

Neuton Corrêa*

Eu e o Aldenor embarcamos no busão entretidos com a ideia de escrevermos um livro juntos. Cientista social, o Aldenor procurava na Sociologia um método e uma teoria que pudessem sustentar e fundamentar a obra. Eu, passageiro-repórter, filósofo de formação, argumentava que deveríamos brincar de ser deuses. Pegar o Nada e transformá-lo em Tudo e deixar o resto para os outros. 

É claro que, pelo respeito que tenho pelo amigo, não falava assim. Até academizava a discussão dizendo: “Acho que podemos usar todas as ferramentas científicas possíveis, sem, contudo, citá-las. Vamos apenas reunir as histórias e escrevê-las”. E meu amigo concordava, replicando que, nas Ciências Sociais, o pensador Geertz, chama esse tipo de trabalho de descrição densa. 

Não estranhem o papo, senhoras e senhores do busão. Estávamos à vontade para tratar daquilo, porque a viagem era no 616, rota da Ufam. Tão à vontade que passamos pela catraca sem interromper o diálogo. E sentamos nos primeiros bancos, perto do cobrador, que já deve estar acostumado com esse tipo de papo na linha universitária. 

E foi ali, perto do cobrador, que o Aldenor interrompeu a conferência, levantando dedo o indicador direito, pedindo atenção para alguma coisa. Logo, supus que lhe houvesse ocorrido uma grande ideia, mas ele me olhava e ria e sem dar uma palavra e permaneceu me pedindo atenção de um ponto a outro nas paradas do busão. 

No ponto seguinte, porém, quando o ônibus parou, o Aldenor voltou a falar: “Presta atenção, presta atenção”. E nada aconteceu, mas ele insistia: “Espera aí, espera aí”, pacientando-me, desta vez, porém, pedindo que eu escutasse alguma coisa. 

Nessa hora, um passageiro, à altura do bairro Japiim, pede para desembarcar e, ao descer, o cobrador olhou para a porta de desembarque e, com uma moeda, deu dois toques em sua mesinha de metal, pedindo para que o motorista partisse. 

Eu ainda não havia entendido o que meu amigo queria com aquela história e ele me perguntou: 

– Isso te lembra alguma coisa? 

Eu, ainda sem assimilar, respondi. 

– Não. 

E ele, então passou a imitar o som de uma campainha: 

– “Tem”, “tem” (pausa) “tem” (pausa) “tem”, “tem”! 

E eu, finalmente: 

– O barco? 

-Exatamente, respondeu, caindo na gargalhada. E eu também. 

Ora, amigas e amigos do busão, como pude ter sido incapaz de ouvir o aviso do cobrador ao “motora” sem associar o barulho da moeda à campainha dos barcos? Uma falha grave para quem tanto viajou e ainda viaja até hoje nesse meio de transporte, apesar de que a grande maioria das embarcações já não utiliza mais o instrumento de comunicação entre o comande e o marinheiro de máquina. 

As campas, como são chamadas as campainhas de barco, possuem linguagem universal que tentarei explicar para vocês. Se o motor estiver em repouso, e com a máquina desligada, para acioná-la, o comandante emite vários toques insistentes. À re: “tem”, “tem”; parar à ré: um “tem”; avante: um “tem”; meia-força à frente: “tem”, “tem”; a toda: “tem”, “tem”, “tem”. 

O movimento para parar em algum destino é mais simples. Quando o barco está a toda, emitem-se os sinais inversos: chama-se atenção do marinheiro com vários toques; dois toques são para reduzir a velocidade e um toque desliga-se a tração e depois os “tens” são da operação de atracação. Aí, a campa canta de acordo com o porto, o rio e a correnteza. 

Bem, chegamos à Ufam e não falamos mais da nossa obra, mas ideia está viva. 

*Filósofo e escritor.

Tags