Morreu fazendo H
Publicado em: 29/05/2011 às 00:00 | Atualizado em: 29/05/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Relatos das crônicas do jornalista Claudio Amazonas dão conta de que, há muito, viveu, no bairro Educandos, um homem conhecido como Chico Dacalé. Os relatos registram que essa figura tornou-se ainda mais famosa depois de sua morte. Um fato curioso, segundo Amazonas, e gente que jura ter conhecido tal personagem, é que Dacalé morreu fazendo H.
Eu já havia esquecido o Dacalé, afinal, passaram-se 11 anos desde o dia em que escutei atentamente a história do homem que morreu fazendo H. Aliás, nem me dei conta de que havia memorizado cada detalhe daquela crônica, da cena, do salão de danças e das pessoas que não se deram conta de que Dacalé havia morrido ao lado delas. E, como minha memória pode ter perdido preciosas informações, peço permissão ao querido Amazonas, que só conheço de fama, para contar algo semelhante.
Esta semana, esse personagem ressuscitou do nada nas minhas viagens de busão. Nunca o conheci, mas juro que o vi viajar comigo no 004. O embarque dele ocorreu onde sempre imaginei que um dia pudesse encontrá-lo: no Educandos, quando o ônibus contornava a orla do rio Negro.
Esse Dacalé vestia branco da cabeça aos pés: o chapéu panamá tinha a copa circundada por uma fita branca um pouco acima da aba; a camisa, branca, parecia ter sido feita de morim, mas diferenciava-se desse tecido pela leveza com que se balança sobre sua calça. Bem, a calça… A calça também era branca, porém não tinha a mesma alvura nem da camisa nem dos sapatos, que se destacavam de sua roupa por ter uma fivela reluzente dourada, a qual se podia perceber que havia acabado de ser polida.
Mais dois detalhes chamavam a atenção: o perfume e os cabelos. Ele estava mais cheiroso do que cupuaçu no pé da árvore. Ainda passava pela catraca, mas no fundo do ônibus já dava pra sentir o cheiro sufocante do extrato que usava. Os cabelos eram cacheados e, pelo que notei, os cachos foram arrumados um a um. Ah, parecia estar usando brilhantina.
Sentar-se foi outra coisa. Não foi simplesmente uma sentada. Foi um ritual de sentação: primeiro, ficou perto da cadeira, puxou uma toalhinha do bolso, passou-a sobre o assento, suspendeu a camisa, a calça, balançou a cabeça de um lado para o outro, rapidamente, fazendo os cachos dançarem e, finalmente, acomodou-se cruzando as pernas e abrindo os braços.
Foi ali, naquele ritual, que disse para mim mesmo: esse é o Chico Dacalé.
Até onde me lembro, assim as crônicas do Educandos o descrevem: como um ser performático em tudo o que fazia, principalmente como pé-de-valsa. Na verdade verdadeira, asseveram os relatos que, por causa de sua incrível intimidade com a dança, Chico Dacalé era também conhecido como encantador de mulheres.
Pelo que me recordo das histórias dele, sua habilidade como dançarino o fazia diferente do grupo de rapazes do qual fazia parte. Eles eram três: Otinha, Paixão e Chico Dacalé, acostumados a acabar com festa. Mas o que me impressiona, e o que me intriga, é que os relatos do lugar dizem que o Chico era diferente. Sua praia era mesmo a dança.
E foi dançando que aconteceu seu passamento. Ele era muito jovem e muito charmoso, dizem as crônicas. Estava dançando com uma linda dama quando se despediu dos amigos, das mulheres, da música, da dança e dos salões de então.
Naquele dia, dançou como nunca e como ninguém; dançou com todas as mulheres que ousavam ir além de uns passos acanhados, inclusive com mulheres casadas, que só se aproximavam mediante autorização dos maridos.
E Dacalé dançou, dançou até se cansar. E foi-se descansar em uma cadeira ao redor do salão. Lá, cruzou as pernas, abriu os braços, sorriu como galã de cinema e morreu sem que ninguém percebesse.
Foi ali, naquele instante, que alguém imortalizou a frase: “Ele morreu fazendo H”.
*Filósofo e escritor.
