Crise de perfeição
Publicado em: 05/04/2011 às 00:00 | Atualizado em: 05/04/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
De cara, não dava para fingir que as duas meninas que embarcaram no Centro, na avenida Getúlio Vargas, eram apenas mais duas passageiras. Elas não eram passantes. Correto, talvez, seria dizer ficantes, porque, delas, muita coisa ficaria. Eram tão incomuns que valia a pena dar uma espiadela. Pareciam gueixas ou artistas de circo.
Sob o branco da maquiagem que cobria a rosto, a morenez das garotas desaparecia para reaparecer nas partes que as calças e blusas de mangas compridas que vestiam deixaram à mostra. E as faixas da pele que ficavam expostas faziam um círculo para exaltar ainda mais os contornos dos tornozelos e barrigas saradas das meninas.
Não sei descrever se eram altas ou baixas, mas não dava para dizer que era uma coisa ou outra, porque nelas tudo era proporcional. Pareciam ter sido esculpidas pela paciência da eternidade de um tempo de sete dias e sete noites, o tempo eterno do verbo que ordena a perfeição.
Ali, espiando as esculturas, até imaginava ouvir a ordem da perfeição: “Faça-se o rosto”: e o rosto se fez com boca suave, olhos modelados e narizes afilados pela mão do mais preciso artesão do corpo humano; “Façam-se as pernas”: e as pernas brotavam simetricamente torneadas, para assentar os quadris que se destacavam das demais partes.
Devo revelar-lhes, amigo e amiga do busão, eu não era o único a me assanhar e me bestar (no pensamento) por elas. Até as mulheres olhavam. Olhavam e se cochichavam. Mas, e daí? Falar o quê. Era o primeiro dia do Carnaval e elas poderiam ser artistas mesmo ou estar maquiadas para algum espetáculo.
Elas não quiseram sentar no busão. Havia lugar. Depois das 22h, sempre sobram cadeiras, mas preferiram dividir o suporte do busão onde os passageiros se apoiam quando a viagem está superlotada. E lá, pertinho de mim, começaram a conversar, e eu a conhecê-las pelo nome.
Aprendi os nomes das meninas porque na conversa elas deixaram escapá-los. Uma se chamava “Cel ou Céu”. A outra era a Marcela. Na verdade, às vezes, a Cel chamava a amiga de “Má”, de “Cela” e, por fim, “Marcela”:
Da parte do diálogo que ouvi, apenas por causa de meu magistério de passageiro-repórter, elas estavam se queixando:
– Eu estava rouca.
– Passei o dia com febre. Só vou não sei nem por quê.
– Eu também. Só vou porque ele percebeu que eu estava rouca.
Nessa hora, as duas fizeram um breve silêncio e Céu, sussurrando, perguntou à parceira:
– E aí, Má, me conta:
– Nada!
Os ouvidos dos abelhudos se aguçaram ainda mais. E Céu continuou, falando deliberadamente:
– Ah, ele é muito devagar. Ele quer namorar. Namorar não dá.
– Nem naquela noite?
E Má assentiu:
– Nem naquela noite.
Depois disso, a Céu veio abaixo:
– É, Má, eu também acho que vou voltar no zero. Até agora, por amor, não peguei ninguém.
Como já havia passado de minha parada, desci no ponto seguinte.
*Escritor e filósofo.
