Tempo bom
Publicado em: 20/05/2012 às 00:00 | Atualizado em: 20/05/2012 às 00:00
Neuton Corrêa*
Meu coração apertou e meus olhos, como várzea na enchente, alagaram com a cena: um picolezeiro tentando consertar o lado esquerdo das sandálias. Ele iria correr para embarcar no 422, mas a alça do calçado que se encaixa entre os dedos saiu da sola. Mesmo assim, arrastou-se para embarcar no busão, mas era impossível conter a pressa do motorista em um domingo de pista livre.
Por isso, talvez por isso, a única coisa que voltou em mim foi o tempo. Ali estavam dois parceiros de minha infância: uma caixa de picolé e um par de sandálias de borracha.
Vender picolé no meu tempo de Rua 31 de Março era a diversão da garotada. Fora de moda era ficar em casa. Não tinha curtição melhor do que pegar um isopor no bar São Pedro, no Bar do Xangaia, no Mine Bar ou no Brasa. Nem todo mundo tinha o privilégio de sair pelas ruas gritando: “Picolé do Brasa! Picolé do Brasa!” Nunca tive essa sorte. Toda vez que me apresentava ao Brasa para o trabalho, negavam-se o serviço. Diziam que eu era gito demais (e era mesmo). Então, ia para o São Pedro.
Nesse saudosismo, lembro agora meus parceiros de trabalho Bereré, Paulo Turino, Senembu, Jonas, Musiquinha, Cocada, Abutre (já falecido), Busina e do Bi Garcia, hoje prefeito de Parintins, que naquela época era apenas o desengonçado Frank, vendedor de doce de leite, em lata de leite Ninho.
Pois bem, a bolsa de picolé era apenas um motivo para ganhar o mundo sobre as sandálias Cariri. Havaianas eram um artigo de luxo, ainda mais no caso de minha turma, que nunca voltava direto para a casa. Sempre havia tempo para uma partida de futebol na praia da beirada do mercado ou na praça da Catedral.
Essas brincadeiras me permitem ver agora quanta utilidade havia em nossas sandálias. Começava com o gol. Bastavam dois pares, duas bandas de um lado e de outro e pronto, as traves já estavam montadas. O Bereré era desconfiado. Com medo de perder o calçado e de levar surra com sandália, ele não se separava das dele. Metia-as no braço, à altura dos bíceps, e corria pra cima pra baixo.
As sandálias também serviam como luvas de goleiro, principalmente quando o jogo era com bola pesada ou molhada ou mesmo quando se sabia que ali tinha um atleta de chute forte. O Paulo, maior e mais fundo (bola murcha), preferia o gol. Ah, o Paulo, apesar da altura e da largura, tinha uma voziiiinha. Falava fino demais, parecia voz feminina.
Eu era relaxado com as minhas sandálias. Tanto que um dia tomei um chá de ripa de cedro porque não sabia por onde minhas sandálias andavam na hora de entrar na escola, que ficava em frente de casa. Fui com uma nova que meu pai comprou na mercearia Deus Proverá, do seu Zeca. Pois não é que nesse dia, na hora do recreio, ao chutar uma bola de meia, minha Cariri voou para o telhado do Ryota Oyama. Com medo do segundo chá de cedro, esperei as zeladoras saírem de lá e resgatei meu calçado.
Por favor, não me pergunte como foi, porque, toda vez que olho para a escola fico imaginando o risco que enfrentei para tê-las de volta.
Antes de finalizar essa história, ocorre-me agora a lembrança das sandálias com alça traseira de elástico. Lembram?
Foi pensando nessas cenas que meus olhos não aguentaram. Além disso, tinha visto o quanto o picolezeiro havia aproveitado bem suas Havaianas. Quando as levantou, deu para ver o desgaste da borracha. Aquele botão de baixo já não existia. Então, pensei que poderia voltar para ajudá-lo, mas, ao meu alcance, não havia nenhum prego. Então, segui a viagem internamente chorando com as lembranças daquele tempo bom.
*Escritor e filósofo.
