O barco do asfalto
Publicado em: 08/04/2012 às 00:00 | Atualizado em: 08/04/2012 às 00:00
Aldenor Ferreira*
Toda semana tenho que pegar o busão intermunicipal para ir à aula na Unicamp, já que agora estou morando em Jaboticabal (SP), a terra da cana-de-açúcar e do amendoim, distante 260 quilômetros de Campinas.
Na minha primeira viagem, com o trajeto ainda inédito, comprei um bilhete onde pudesse sentar na cadeira da janela para apreciar bem a paisagem. E de fato fiquei apreciando tudo, de um lado e de outro das rodovias Washington Luis e Anhanguera, importantes rodovias que ligam o interior do Estado à capital.
Amigos do TEXTOBR, a paisagem é monótona, possui uma única cor e uma ausência. A cor é o verde, da imensidão das plantações de cana-de-açúcar, paisagem humanizada que mostra a força do agronegócio na região. Quanto à ausência, esta é de fácil percepção, ou seja, nada de florestas, apenas pingos de matas, tristes e isolados uns dos outros, como se fossem as lágrimas do Criador caídas ao chão.
Logo de imediato lembrei de Antônio Carlos Belchior, naquela sua modinha chamada “Fotografia 3×4”. No primeiro verso dessa canção o poeta diz: “eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei; jovem que desce do Norte pra cidade grande; os pés cansados e feridos de andar légua tirana; e lágrima nos olhos de ler o Pessoa e de ver o verde da cana…”. De fato foi um momento de emoção.
O itinerário do busão é planejado para que o mesmo pare em várias cidades que se localizam às margens das rodovias acima citadas. O silêncio interno do busão, com suas poltronas reclináveis, onde todos dormiam ajudados e embalados por um potente condicionador de ar, possibilitou-me divagar e voltar à infância.
Nesse ambiente tranquilo, lembrei das viagens que fazíamos todos os meses do Aduacá para Parintins. A cena é a mesma, só que lá viajávamos no barco de recreio que, ao longo dos anos, tal qual o busão, também foi evoluindo.
De um motor 4 Yamaha, para um 25, depois para um 52 e até quando viajei, para um 114 MWM. As viagens que duravam até 12 horas, hoje duram a metade. Ao longo do Paraná do Cabori várias comunidades, vários portos, rica paisagem e muitos embarques e desembarques.
Quando saíamos no rio Amazonas a mesma coisa. Então, mentalmente transladei o Paraná do Aduacá para São Paulo e conclui: aqui os paranás são as rodovias, as comunidades são as cidades e o barco é o busão, “o barco do asfalto”, até o ronco do motor é parecido. Cada manobra de entrada e de saída das rodoviárias das cidades me remetia às mesmas manobras do comandante do barco Cel. Tavares.
E a viagem seguia; vários portos, várias comunidades, muitas manobras, muitas rodoviárias. Aqui, como lá, a cada porto uma parada, muitos embarques e desembarques, todos carregados de sonhos e esperanças.
Aqui como lá, há alegrias de chegadas e tristezas de partidas, todos esses pontos comuns apontam para uma mesma realidade, ou seja, tanto aqui, quanto lá, todos estão inseridos nessa colossal máquina da vida. Sem dúvidas foi uma viagem recheada de lembranças e comparações, sem água, e com muito asfalto.
*Sociólogo, mestre em Sociedade e Cultural/Ufam; dourando em Sociologia pela Unicamp.
