Borari é Borari, Caribe é Caribe

Texto critica rótulo turístico e destaca cultura, território e resistência indígena no oeste do Pará.

Dassuem Nogueira e Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 03/04/2026 às 09:05 | Atualizado em: 03/04/2026 às 09:08

Alter do Chão, balneário fluvial localizado no município de Santarém, no Oeste do Pará, não é o Caribe Amazônico, como o define a mídia turística.

Alter do Chão é um pedaço do território indígena Borari, povo que tem suas raízes ancestrais fincadas na confluência do rio Amazonas, de águas barrentas, com o rio Tapajós, de águas esverdeadas, a 800 quilômetros das bordas do Atlântico.

A comparação é jogo de marketing, mas, por razões óbvias, esconde a existência dos seus habitantes originários.

Os Caribe

Caribe é o nome genérico dado a um conjunto de povos indígenas que habitavam a costa norte da América do Sul e às Antilhas. Eram povos guerreiros, excelentes navegadores e construtores de canoas capazes de abarcar numerosos viajantes pelo mar que passou a se chamar mar dos Caribe. Assim como os Borari de Alter do Chão, resistiram intensamente à colonização europeia.

Atualmente, além de dar nome ao mar onde habitaram, é a nomeação de uma das maiores famílias linguísticas da América do Sul, com cerca de 40 línguas faladas por ao menos 100 mil pessoas.

É predominante no norte da América do Sul (Brasil, Guianas, Venezuela), incluindo línguas como a dos Macuxis e a dos Hixkaryana.

Alter

A vila de Alter do Chão está a 38 km de Santarém, e seu nome deriva de uma localidade em Portugal, na região do Alentejo, berço da criação do cavalo Alter Real, desde o século 17. Nada a ver com a ancestralidade borari.

Assim como Caribe, Alter do Chão é a nominação reducionista do invasor para anexar territórios e suprimir suas culturas.

O mais comum entre os dois lugares são as belezas ímpares a atrair olhares em busca de contrastes com os conglomerados urbanos, apesar do avanço do capital de terra arrasada sobre ambos. Por isso, a propaganda turística subliminar apela: venha aqui ou vá lá antes que o paraíso desapareça!

Território Borari

Há, também, um sentimento de pertença dos atuais moradores inscritos na culinária tradicional, no artesanato, na medicina natural, no grafismo étnico e no apego à natureza.

Com essa bagagem cultural, os Borari têm lutado para reaver suas terras invadidas no processo de colonização europeia.

A comparação com o Caribe não corresponde à manifestação da presença borari na vila. Lojas, restaurantes, pousadas, hotéis, bancas de artesanato, estampas de roupas e bolsas de praia, canoas e barcos prestam reverência ao povo Borari.

Atualmente, são 1.988 indígenas Borari, a maioria vivendo em Alter do Chão, onde estão organizados, principalmente, por meio da Associação Indígena Borari de Alter do Chão (Aibac), e pela Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós (Amist), composto também por mulheres do povo Arapiuns.

Turismo

O turismo é fonte de renda para a população residente, entre locais e migrantes que se instalaram na vila. Mas promove problemas, entre os quais, o excesso de carros nas ruas e poluição sonora em áreas de concentração de turistas.

Os momentos mais conturbados ocorrem na alta temporada turística, que vai de setembro a fevereiro, quando a descida da água descobre, totalmente, a Praia do amor, cartão postal da vila.

As principais atrações desse período são o Carnaval, em fevereiro, que atrai foliões dos estados do Amazonas, Macapá, Maranhão e Pará, e a Festa do Sairé, em setembro, evento que congrega manifestação religiosa e festa popular, com procissão e apresentação dos botos Tucuxi e Vermelho, no sairódromo.

Tranquilidade

A baixa temporada, período em que a praia desaparece na sua quase totalidade, a vila dos borari recupera a tranquilidade: ruas calmas, sem excesso de carros e poucos turistas farristas, ambiente propício àqueles que querem conhecer a natureza, pessoas e suas culturas.

E, assim, os visitantes podem se reencontrar com a natureza e com cultura do território borari de modo sossegado. E a preços mais baixos.

Seus olhares podem se voltar para coisas que passariam despercebidas no meio da muvuca da alta temporada, como um quintal com plantações de macaxeira, um pé de taperebá, cujo fruto gera um suco vendido em bares, lanchonetes e restaurantes; pés de manga e oitizeiros no meio da rua, que, se não fosse resistência dos borari, teriam sido derrubados para facilitar a passagem dos carros; provar com gosto e tempo uma tigela de açaí, uma cuia de tacacá, um prato de pato no tucupi, todas iguarias da tradição indígena/nortista.

Não menos convidativos são as trilhas de imersão na floresta e observação de pássaros, macacos, répteis, roedores e insetos do ecossistema local.

Gentileza

A chamada baixa temporada não destitui o território borari da gentileza das suas gentes nem das suas belezas naturais.

É, sim, um convite para quem pensa em combinar o turismo tradicional ao turismo cultural, uma vez que a praia do sopé do morro, do outro lado da vila, que na vazante separa o Lago Verde do rio aberto, permanece firme por todo o ano.

Aliás, poucos ou ninguém deixará de concordar que a praias borari são tão bonitas quanto às dos caribes, ainda que sofram os mesmos problemas gerados pelo capital de destruição ambiental.

Mas, Borari é Borari e Caribe é Caribe.

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Fotos: Wilson Nogueira e Rosário Nogueira