Casos escandalosos
Robério Braga revisita casos escandalosos da política amazonense, relacionando episódios históricos às disputas eleitorais atuais e destacando a importância da memória política e da segurança do processo eleitoral
Por Robério Braga*
Publicado em: 18/07/2026 às 11:58 | Atualizado em: 18/07/2026 às 11:58
Estamos entrando em período de campanha eleitoral em todo o país. No Amazonas, como deve suceder nos demais estados federados, os ânimos ficam acirrados entre os candidatos aos cargos eletivos, cada um deles acolhido em partido político.
Ao que se conhece, é também em meio às próprias fileiras partidárias que a briga costuma ser à base de foice, seja por vaga no horário de propaganda gratuito, seja por verba para custear a campanha, assim como para ter presença assegurada junto aos candidatos a cargos majoritários nas caminhadas, comícios, reuniões e entrevistas. É aí que surgem os chamados papagaios de pirata.
Além disso, é tempo no qual, tradicionalmente, surgem denúncias que os denunciantes costumam timbrar de “escândalos”, algumas vezes relembrando casos requentados ou devidamente esclarecidos, e outros que, ainda sem conclusão das devidas investigações, são precipitados ao vento e à mídia somente para “causar” ou impactar a campanha do concorrente.
E isso sucede em todas as esferas de poder, entretanto, devem merecer mais atenção do eleitorado, ao mesmo tempo que precisam ser averiguados com critério pelos órgãos de controle.
Os escândalos como arma eleitoral
Essa conduta não é nova na política amazonense. Em 1916, por exemplo, uma ilustre figura com expressão eleitoral que chegou a ser senador da República por nossa bancada, foi cascavilhar coisas bem antigas para trazer à cena política e depois ainda incluiu esses “eventos” em um dos seus livros, precisamente naquele em que cuidou da reforma constitucional que era reclamada por diversos setores da sociedade brasileira e foi realizada somente em 1926.
O que ele recuperou do meio de papeis velhos e notícias amareladas parece ter sido coisa de arrepiar cadáver, pois relembrou do incêndio provocado no jornal “Diário de Manaus”, que era órgão de oposição ferrenha ao governo estadual.
Também recordou da indenização de milhares de réis ao que ele chamou de “poderosa Companhia de Navegação do Amazonas”, pagos pelo Estado; do auxílio (?) de muitos milhões de réis a um banco que nunca teria tido nem capital nem escritório; da subvenção de muitos contos de réis a uma empresa “rápida de vapores costeiros, que nem um saveiro possuía”; da desgraceira dos contratos com a “Manáos Improvements”, o que ele chamou de “um dos maiores flagelos aos governadores honestos e à população de Manaus”, como fazia questão de destacar.
Lições que a história ainda ensina
Cá com meus botões, que sempre me ouvem em silêncio sepulcral, eu mesmo resolvi lembrar de outros casos que podem compor a mesma lista de escabrosos, como aquele incêndio de jornal que alguns populares procuraram apagar com tonéis de querosene.
A confirmação de eleição de governador pelo Congresso Foguetão; a prisão de um governador, só de pijama, enquanto ele passeava com o neto pela calçada de sua residência; uma carta de renúncia ao cargo de governador que teria sido fraudada… Episódios a respeito dos quais já teci alguns comentários em artigos de jornal.
Hesitei em referir outros assuntos que circulavam em meio da classe política mais antiga e costumavam vazar para os jornais, os quais andei anotando ao longo de muitos anos de pesquisa, porque alguns nem mesmo aos meus botões eu quero relembrar, de tão escabrosos que teriam sido.
Um apenas, para encerrar a conversa e demonstrar a importância da votação e apuração eletrônicas com identificação digital: antigamente o eleitor escrevia o nome do candidato a deputado em cédula de papel. Um candidato teve todos os votos de uma urna no interior. Todos com nome completo, boa caligrafia e sem erro. E o nome era quase todo em língua inglesa: W.S.A.S.
Não é escabroso, um caso desses?
O autor é membro Academia Amazonense de Letras.*
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.
