El Niño e a Amazônia: dinâmica, ecologia e impactos socioeconômicos

Renato Senna analisa como o El Niño altera o clima da Amazônia, intensifica eventos extremos, afeta rios, biodiversidade e economia, e reforça a importância da preservação da floresta.

Vista aérea de rio amazônico com baixo nível da água.

Por Renato Cruz Senna*

Publicado em: 20/07/2026 às 12:16 | Atualizado em: 20/07/2026 às 12:16

Decorrente de um aquecimento em grande escala das águas superficiais no Oceano Pacífico equatorial, o El Niño não é um evento isolado, mas o resultado de uma interação complexa e contínua entre o oceano e a atmosfera, que constitui o principal ator na variabilidade climática interanual na Amazônia e em diversas regiões tropicais do planeta.

O processo se fundamenta em um mecanismo de feedback positivo proposto pela hipótese de Bjerknes, em que uma anomalia inicial de temperatura na superfície do mar (TSM) reduz o gradiente térmico entre o leste e o oeste do Pacífico.

Como resultado, há o enfraquecimento dos ventos alísios; sem a força desses ventos para empurrar as águas quentes em direção ao oeste, a “piscina quente” do Pacífico se desloca para o leste, alterando a estrutura da termoclina e os padrões de circulação geral da atmosfera.

A compreensão moderna do El Niño-Oscilação Sul (ENOS) identifica diferentes configurações do fenômeno, frequentemente denominadas como o tipo Pacífico Oriental (EP) e o tipo Pacífico Central (CP), também conhecido como El Niño Modoki.

Enquanto o El Niño convencional apresenta o aquecimento máximo concentrado próximo à costa da América do Sul, o tipo Modoki estabelece suas anomalias térmicas perto da Linha de Data Internacional (180° de longitude).

Essa distinção geográfica não é apenas acadêmica: a localização da anomalia máxima de TSM determina a região onde ocorre a máxima convecção e, consequentemente, como as teleconexões se propagam pelo globo.

Durante eventos EP, observa-se comumente um aumento expressivo nas temperaturas de inverno na América do Norte e secas acentuadas na Austrália e no Sudeste Asiático.

Na América do Sul, o El Niño costuma inverter a lógica das chuvas, favorecendo precipitações abundantes no sul do continente, enquanto induz restrições hídricas severas na Amazônia e no Nordeste Brasileiro (NB).

Mudanças climáticas ampliam os efeitos do El Niño

Embora o El Niño seja um fenômeno natural documentado há séculos, evidências científicas indicam que ele pode estar sendo influenciado pelas mudanças climáticas antropogênicas.

O aumento das concentrações de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera alterou o estado médio do Oceano Pacífico, o que pode afetar a amplitude e a frequência dos eventos ENOS.

Existe uma tendência observada de aumento na ocorrência de eventos do tipo Pacífico Central nas últimas décadas, uma mudança que modelos climáticos projetam como um possível impulsor em um cenário de aquecimento global persistente.

Na Bacia Amazônica, o aquecimento regional de cerca de 0,5 °C registrado desde 1980 atua como um fator de amplificação, intensificando os efeitos de seca e calor durante os anos de El Niño.

Estima-se que, em eventos recentes, a forçante climática global tenha sido responsável por uma parcela significativa da redução nas chuvas, demonstrando que a variabilidade natural está sendo moldada por influências humanas.

A influência do El Niño sobre o clima e o regime hidrológico da Amazônia se manifesta predominantemente através da supressão da convecção atmosférica, inibindo a formação de nuvens e reduzindo o volume de chuvas nas porções norte, leste e oeste da bacia.

Esse déficit de precipitação é frequentemente acompanhado por temperaturas do ar anomalamente altas, que elevam a evapotranspiração potencial e reduzem a umidade do solo.

A seca modifica a dinâmica dos rios amazônicos

O impacto hidrológico desses eventos é claramente notado nos registros históricos de níveis fluviais. Em outubro de 2023, sob a influência de um El Niño intenso, o Rio Negro, em Manaus, atingiu a cota mínima inferior a 12,70 metros, superando recordes de mais de um século.

Rios como o Solimões e o Madeira também registraram baixas sem precedentes, afetando o transporte de mercadorias e o abastecimento de comunidades que dependem do sistema fluvial como sua infraestrutura básica de sobrevivência.

No ano seguinte, com a estação chuvosa de 2024 ainda afetada pelo evento, o recorde mínimo foi atingido em outubro no Porto de Manaus, com apenas 12,13 metros, sendo o menor registro desde 1902, início da série histórica.

Sob a perspectiva ecológica, a resposta da floresta ao estresse do El Niño é complexa e revela a fragilidade dos mecanismos de resiliência do bioma. Historicamente, a Amazônia tem funcionado como um sumidouro de carbono, absorvendo parte das emissões terrestres globais.

No entanto, a combinação de seca extrema e calor intenso durante eventos de El Niño acaba por reverter temporariamente esse papel, transformando a floresta em uma fonte de carbono para a atmosfera.

Nesses períodos, é possível observar o aumento na mortalidade da vegetação, particularmente das espécies de crescimento rápido e madeira leve, acompanhado de um declínio no crescimento da biomassa.

O fenômeno conhecido como green-up (um aparente esverdeamento da copa devido ao aumento da radiação solar em períodos menos nublados) pode ocorrer se as árvores conseguirem acessar reservas mais profundas de água do solo por meio do desenvolvimento de suas raízes.

A floresta perde resiliência diante dos eventos extremos

Contudo, em eventos de magnitude excepcional, como os de 2015-16 e 2023-24, esse mecanismo de compensação parece falhar, resultando em estresse fisiológico severo e perda de funcionalidade.

O risco de incêndios florestais é outro impacto crítico que se intensifica durante os eventos El Niño. A floresta tropical úmida, naturalmente resistente ao fogo, torna-se inflamável quando o déficit hídrico prolongado resseca a camada de serrapilheira e o sub-bosque.

Incêndios em grande escala não apenas destroem a biodiversidade e a estrutura florestal, mas também injetam aerossóis e fuligem na atmosfera. Essas partículas em suspensão alteram a microfísica das nuvens, o que pode reduzir ainda mais a precipitação local e prolongar a estação seca, criando um ciclo de feedback negativo entre a degradação florestal e a estabilidade climática.

Na fauna aquática, os níveis fluviais mais baixos, a elevação das temperaturas e a redução do oxigênio em águas rasas causaram, em 2023, o registro de grande mortalidade de botos e peixes, sinalizando que os limites de tolerância biológica estão sendo atingidos.

Os impactos socioambientais do El Niño na Amazônia podem configurar crises humanitárias e econômicas. A redução severa dos níveis dos rios, exemplificada pelos eventos de 2023 e 2024, comprometeu a navegação em calhas vitais, como as dos rios Solimões e Madeira. Isso ocasionou um isolamento geográfico que obstruiu o acesso de comunidades ribeirinhas e indígenas a alimentos, água potável e insumos médicos essenciais.

No âmbito econômico, a logística da Zona Franca de Manaus (ZFM) enfrentou interrupções críticas, impossibilitando que navios de grande calado acessassem o Porto de Manaus e forçando a migração para modais mais onerosos, como o transporte aéreo e o uso de balsas operando com capacidade reduzida.

Conforme relatórios do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), essas adaptações emergenciais geraram sobrecustos logísticos anuais estimados entre R$ 1,4 bilhão e R$ 1,5 bilhão, elevando o chamado “custo Amazônia” e prejudicando a competitividade das indústrias instaladas na região.

A crise estendeu-se à agricultura, agravando a insegurança alimentar, e à saúde pública, afetada pela fumaça de incêndios florestais que motivou o aumento de doenças respiratórias e o fechamento de infraestruturas como aeroportos e escolas.

Por fim, a redução na vazão de rios que alimentam usinas fundamentais, como Santo Antônio e Jirau (ambas no Rio Madeira), comprometeu a geração de energia hidrelétrica, pressionando os custos do sistema nacional e afetando a estabilidade econômica de todo o país.

A preservação da floresta é uma estratégia de segurança climática

Diante deste cenário, a gestão do futuro climático da Amazônia exige uma mudança radical na forma como a sociedade interage com a floresta.

A variabilidade natural do El Niño, agora amplificada pelas mudanças globais e pelo desmatamento, empurra o bioma em direção a um ponto de não retorno, onde a floresta úmida poderá ser substituída por formas de vegetação mais secas e degradadas.

Para evitar esse colapso, a ciência sugere zerar o desmatamento e incentivar programas de restauração florestal como medidas de segurança climática indispensáveis. A manutenção da “bomba biótica” (o mecanismo pelo qual a floresta transpira e recicla a umidade do oceano) é o que garante a produtividade da Amazônia e de grande parte da América do Sul.

Preservar esse patrimônio natural é a única forma de mitigar os impactos de um Pacífico em transformação e assegurar a estabilidade das sociedades que dependem do aporte da grande floresta aos “rios voadores”.

O autor é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) desde 1986. Meteorologista pela Universidade Federal de Pelotas (UPFEL) e Mestre em Agronomia (Física do Ambiente Agrícola) pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é doutorando no Programa de Pós Graduação em Clima e Ambiente (INPA/UEA) e editor chefe do Boletim de Monitoramento Climático de Grandes Bacias Hidrográficas: Bacia Amazônica, publicação semanal contendo informações das condições registradas nas principais bacias da região.*

Foto: Tadeu Rocha.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3718655303466935

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