Instituição que teve alunos renomados como o escritor Thiago de Mello, o professor Mário Ypiranga Monteiro, o economista Osíris Silva e o ex-vice-governador Samuel Hanan, o Colégio Estadual D. Pedro II completou 150 anos na última quinta-feira, dia 14 de março.

Com uma história que se confunde com a do Amazonas, por ser o primeiro colégio do estado, foi na comemoração dos 100 anos de fundação que os primeiros grandes resultados de ensino começaram a ser registrados.

Diretor  do Colégio Estadual no ano de seu centenário em 1969, o professor Manoel do Carmo Chaves Neto, conhecido como Maneca, hoje com 74 anos, relembra a época.

Foi durante sua gestão que o Estadual passou a ser protagonista nas aprovações no vestibular para a Universidade do Amazonas- UA ( hoje Ufam).

“No ano de seu centenário, em 1969, o Colégio Estadual passou a ser protagonista nas aprovações no vestibular para a (UA), Universidade do Amazonas, hoje Ufam”, destaca Maneca.

Foi também com Maneca que as fronteiras da instituição se alargaram para contemplar o esporte.

“Com o Colégio Estadual gozando de elevado prestígio e começamos a expandir a atuação para o esporte que passou a protagonizar importantes momentos no desporto estudantil de sua época”, conta, com orgulho.

E no desfile de 5 de setembro de 1969, um marco inédito:

“Desde os seis primeiros alunos foi contada no decorrer da apresentação do Colégio, com a evolução do fardamento nas diversas épocas e as alegorias que o Colégio apresentou em anos anteriores na frente dos desfiles. Foi um trabalho muito bonito e enriquecedor para todos nós”.

Confira trechos da entrevista com o professor Maneca, concedida ao BNC Amazonas neste sábado, dia 16.

 

1. Como foi administrar e preparar o Colégio Estadual para o seu centenário, em 1969?

Eu fui convidado pelo professor Bartolomeu Dias, então diretor do [escola estadual] Sólon de Lucena, a assumir, em  1968, a vice-diretoria do Colégio Estadual. O Professor Bartolomeu Dias era um nome bastante respeitado na Educação do Amazonas e estava fazendo um trabalho de excelência no Sólon de Lucena quando foi convidado para assumir a a diretoria do Colégio Estadual (ficaria na diretoria de ambos os colégios), tendo aceitado na condição de eu ser seu vice-diretor no Estadual. Assim se deram os fatos. Assumi a vice-diretoria do Colégio Estadual em meados de 1968 e como os resultados foram bons, assumi definitivamente a diretoria em 1969, o ano de centenário.

Naquela época era preciso fazer um trabalho de reconstrução da imagem do Colégio Estadual, melhorando sua eficiência, então passei a reunir com os professores mensalmente a fim de detectar os problemas e corrigi-los. Começamos implementando uma política para que todos os tempos de aula fossem, de fato, ministrados aos alunos e que o conteúdo programático das matérias fosse abordado em sua plenitude em sala de aula, cumprindo a programação.

 

“Com o Colégio Estadual gozando de elevado prestígio, começamos a expandir a atuação para o esporte que passou a protagonizar importantes momentos no desporto estudantil de sua época.”

 

Os resultados foram aparecendo, e no ano seguinte, em 1969, assumi de maneira efetiva a diretoria do Colégio Estadual e seguimos com essa política em busca da excelência levando este conceito até às últimas consequências ao ponto de, como diretor, chegar a dar aula de matemática no lugar de professores que eventualmente não compareciam. Com isso, consegui sensibilizar os colegas a não faltar porque era constrangedor para eles o diretor dar aula de matemática em seu lugar.

Chegamos ao ano do centenário, 1969, com o Colégio Estadual gozando de elevado prestígio e começamos a expandir a atuação para o esporte que passou a protagonizar importantes momentos no desporto estudantil de sua época.

No ano de seu centenário, em 1969, o Colégio Estadual passou a ser protagonista nas aprovações no vestibular para a (UA), Universidade do Amazonas, hoje Ufam.

 

O que podia ser celebrado naquela época, período da ditadura militar no Brasil?

Olha, os colégio tinham liberdade ampla para implantar o seu ensino. Não havia interferência dos militares no nosso ensino. Sempre fui muito bem tratado pelos militares, com respeito e dignidade. Sempre me convidavam para as solenidades nos quarteis e nos eventos por eles realizados. Havia respeito mútuo.

 

No que a rotina de funcionários e alunos se diferenciava dos dias atuais?

No Colégio Estadual exigíamos uma aplicação maior dos estudantes para que mais tarde eles galgassem sucesso.

 

Quais os três momentos mais marcantes que o Colégio Estadual viveu durante a sua  administração?

Pontuando, podemos dizer que primeiro trabalhamos a reconstrução da imagem do Colégio Estadual, em seguida implantamos política de ensino, passamos a investir no esporte, tudo isso junto vai resultar em bons resultados, que levam, por exemplo, à aprovação de nossos alunos nos exames de vestibulares. Nossos alunos passaram a ser protagonistas no quesito aprovação na Universidade do Amazonas.

 

“Acredito que naquela época o ensino era melhor devido ao sistema, havia maior exigência do sistema.”

 

Com relação ao Centenário do Colégio Estadual, ocorrido em minha gestão, posso dizer que o ponto alto da festa do Centenário foi o desfile de 5 de Setembro quando os professores fizeram ampla pesquisa em torno dos cem anos de história e a reproduziram através do desfile na Eduardo Ribeiro. A história do Colégio desde os seis primeiros alunos foi contada no decorrer da apresentação do Colégio, com a evolução do fardamento nas diversas épocas e as alegorias que o Colégio apresentou em anos anteriores na frente dos desfiles. Foi um trabalho muito bonito e enriquecedor para todos nós.

 

Como a educação da época se diferenciava da educação atual? Na sua opinião, o  que mudou, seja para melhor ou para pior?

Fiquei na direção do Colégio estadual até fevereiro de 1973 e, ao sair, assumi a diretoria de ensino da Escola Técnica Federal do Amazonas (antiga Etfam, hoje, Ifam – Instituto de Federal de Educação do Amazonas). Acredito que naquela época o ensino era melhor devido ao sistema, havia maior exigência do sistema. Mas havia resultado positivo. Os melhores alunos saíam das escolas públicas.

 

Quais ilustres amazonenses foram alunos durante a sua administração, ou até mesmo antes e depois, em especial, da política? O senhor teve contato direto com eles? Lembra-se de algum episódio relevante?

Os melhores alunos sempre se destacam, por exemplo, nos exames vestibulares. Via de regra, os primeiros lugares sempre eram do Colégio Estadual. Eu me recordo de nomes como Nelson Hanan, que se destacou no campo da pesquisa nos Estados Unidos. Temos no campo político, Samuel Hanan, ex-vice governador e que também foi secretário de Fazenda. Mas temos muitos professores destaques no nosso Estado oriundos do Colégio Estadual, como por exemplo, Manoel Octavio Rodrigues de Souza, lecionava História Geral. O Mário Ypiranga Monteiro, professor de Geografia, História, um dos grandes nomes do Amazonas, que dá nome a uma de nossas principais avenidas em Manaus. E o professor Farias de Carvalho (Carlos Farias Ouro de Carvalho), que ministrava aulas de Língua Portuguesa e Literatura e foi um jornalista destacado, tendo contribuído com grandes jornais da época.

 

“Os melhores alunos saíam das escolas públicas”

 

O Colégio Estadual completa 150 anos de existência em 2019. O que o senhor espera que seja feito pela  instituição por parte de gestores, alunos e poder público?

Espero que o Colégio Estadual ofereça uma boa qualidade de ensino e que possamos continuar formando gerações que contribuam com o desenvolvimento do ensino do nosso Estado, como fazíamos na época do Centenário. E, que os professores continuem atuando com o mesmo entusiasmo e dedicação dos de minha época.

 

Foto do Centenário: Arquivo/Professor Maneca.  Da esquerda para à direita: Aloisio Nogueira de Melo, Júlio Silva, Ernani Barbosa, Manoel Chaves Neto, Francisco Sales Evangelhista, Patriarca ,Claudio Chaves e Tu de Moutinho da Costa Filho.