Arqueologia na Amazônia: estradas antigas descobertas no Acre
Pesquisa revela rede de 350 km de estradas antigas que conectavam geóglifos e rios estratégicos na Amazônia pré-colonial.
Publicado em: 14/06/2026 às 12:12 | Atualizado em: 14/06/2026 às 12:12
Uma descoberta arqueológica fascinante está reescrevendo a história da Amazônia. Uma equipe de cientistas brasileiros e finlandeses mapeou uma complexa rede de estradas antigas no Acre, somando aproximadamente 350 quilômetros de extensão. Construídas por povos indígenas séculos antes da colonização europeia, essas vias revelam um nível surpreendente de planejamento e engenharia.
A Conexão entre Estradas e Monumentos Antigos
O estudo, publicado recentemente na prestigiada revista científica Antiquity, detalha como essas estradas pré-colombianas tinham múltiplas funções. Elas não apenas ligavam aldeias aos principais rios da região, mas também adornavam e conectavam os misteriosos geóglifos — imensos desenhos geométricos escavados no solo, como quadrados, círculos e losangos.
Segundo Alceu Ranzi, pesquisador do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da Universidade Federal do Acre e coautor do estudo, o avanço tecnológico tem sido crucial. “Quanto mais a tecnologia e as observações avançam, mais vamos percebendo a presença de estradas e caminhos e a conexão entre eles e os monumentos”, explicou o especialista.
Tecnologia de Satélite e a Civilização Aquiry
Para realizar o mapeamento, a equipe, que também inclui Antonia Damasceno Barbosa (Iphan), Risto Kalliola (Universidade de Turku) e Martti Pärssinen (Universidade de Helsinque), utilizou imagens de satélite de diversas plataformas e validações em campo. A área de estudo abrangeu 135 mil quilômetros quadrados do território acreano.
Os dados apontam que a construção dessas estruturas começou séculos antes da Era Cristã, estendendo-se até o ano 1.000 d.C. Os pesquisadores batizaram essa cultura de civilização Aquiry, termo de origem apurinã que nomeava o rio Acre e, consequentemente, o estado.
Geóglifos: Terreiros Cerimoniais na Amazônia
A ausência de cerâmicas domésticas indica que os geóglifos não eram áreas residenciais, mas prováveis terreiros cerimoniais para festividades indígenas. Acredita-se que essas áreas eram originalmente grandes bambuzais, cujos ciclos naturais de secagem permitiam queimas controladas para abrir espaço na floresta.
Planejamento Urbano e Conhecimento Astronômico
A pesquisa identificou 634 estradas largas (com mais de 15 metros de largura) e 321 caminhos mais estreitos. Impressionantemente, a maioria segue trajetos retos e alinhados aos pontos cardeais, sugerindo o uso de conhecimentos astronômicos avançados para a orientação das vias.
Cerca de 40% das estradas mapeadas levam às margens de rios, com destaque para o município de Boca do Acre, um ponto estratégico de conexão na Amazônia. Outros 10% terminam diretamente nos geóglifos, frequentemente se abrindo em formato de leque, possivelmente para enfatizar a grandiosidade dos espaços cerimoniais.
O Futuro das Pesquisas com Tecnologia Lidar
O destino de quase metade das estradas ainda é um mistério, podendo ter levado a áreas agrícolas ou de recursos estratégicos. Embora o desmatamento tenha revelado muitas dessas estruturas, os pesquisadores estão otimistas com o uso da tecnologia Lidar.
Utilizando pulsos de laser capazes de penetrar o dossel da floresta, o Lidar promete revelar modificações no solo ainda ocultas pela vegetação densa. A expectativa é que essa ferramenta desvende conexões ainda mais profundas entre os geóglifos e a antiga rede de caminhos, iluminando os segredos dessa civilização amazônica que, nas palavras de Ranzi, “desapareceu na bruma do tempo”.
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