Caprichoso faz do brincar de boi o grande espetáculo da despedida
Última apresentação transforma o bumbódromo em um grande terreiro e reafirma: a força do festival nasce do povo, da cultura cabocla e da ancestralidade amazônica.
Publicado em: 29/06/2026 às 08:56 | Atualizado em: 29/06/2026 às 09:02
Depois de levar para a arena a exuberância da Amazônia e a força da ancestralidade nas duas primeiras noites, o boi-bumbá Caprichoso encerrou sua participação no 59º Festival Folclórico de Parintins neste dia 28 de junho, um domingo, lembrando que toda essa grandiosidade nasceu de uma brincadeira simples.
Na terceira e última apresentação, o boi azul e branco transformou o bumbódromo em um grande terreiro de memória, afeto e identidade, fazendo do “brincar de boi” o verdadeiro protagonista do espetáculo.
Mais do que disputar notas, o Caprichoso entregou um roteiro cuidadosamente construído desde o primeiro dia do festival.
Se a abertura apresentou “O brinquedo que canta seu chão” e a segunda noite aprofundou a relação entre Amazônia, espiritualidade e povos originários, a despedida devolveu o espetáculo às ruas e aos terreiros onde tudo começou.
Foi o coroamento de uma obra artística dividida em três atos, costurada pela emoção, marca registrada do Caprichoso.
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O povo é o protagonista
O grande personagem da noite não foi uma alegoria nem um efeito especial, coisa que o Caprichoso faz como ninguém, mas o próprio brincante.
O espetáculo reverenciou aqueles que fazem o boi existir durante todo o ano: costureiras, bordadeiras, soldadores, escultores, carpinteiros, empurradores de alegorias, ritmistas, artistas de galpão e trabalhadores anônimos que transformam sonho em realidade.
A evolução do boi negro de veludo aconteceu de maneira mais livre e próxima da galera, remetendo às antigas brincadeiras promovidas nos terreiros das famílias tradicionais de Parintins, na Francesa, nos Palmares, em cada lugar da ilha.
Em diversos momentos, parecia brincar com a arquibancada como fazia o boi de pano que passava de porta em porta, muito antes de existir o bumbódromo.
Foi essa simplicidade que deu o tom da despedida.
- • “O Caprichoso não diminuiu o espetáculo para voltar às origens; mostrou que suas origens sempre foram maiores que qualquer espetáculo“, resumiu assim a terceira noite a torcedora Karina Rodrigues, de Manaus.

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Cultura cabocla como identidade
A terceira noite reafirmou que a cultura amazônica não é elemento decorativo do espetáculo, mas sua própria essência.
As alegorias e encenações deram protagonismo aos ribeirinhos, pescadores, benzedeiras, artesãos e às lendas amazônicas, revelando que o cotidiano caboclo, aquele construído na convivência com os rios, a floresta e a espiritualidade popular, continua sendo a principal inspiração do Festival Folclórico de Parintins.
O cuidado artístico apareceu nos mínimos detalhes dos figurinos, adereços e cenários, evidenciando o talento dos artistas parintinenses e a riqueza estética construída coletivamente ao longo de décadas.
Mais do que representar personagens, cada cena parecia homenagear a própria cidade que fez nascer o boi-bumbá.

Os itens deram rosto e emoção ao espetáculo
O compromisso de resgatar o autêntico brincar de boi ganhou força nas apresentações dos itens oficiais, integrados permanentemente à narrativa construída pelo Caprichoso.
O apresentador Edmundo Oran conduziu cada momento como quem contava uma história ao seu próprio povo, mantendo diálogo permanente com a galera e costurando as passagens do espetáculo.
O levantador de toadas Patrick Araújo protagonizou um dos momentos mais emocionantes de toda a apresentação ao interpretar praticamente à capela a clássica “O meu amor é Caprichoso”, do compositor Chico da Silva.
Acompanhado apenas pelo violão do maestro Neil Armstrong, o grande regente da orquestra que se harmoniza perfeitamente com a Marujada de Guerra, silenciou a arena para que milhares de vozes assumissem naturalmente a canção.
Durante alguns minutos, o bumbódromo inteiro transformou-se em um enorme terreiro de cantoria, em uma demonstração espontânea de pertencimento e amor pelo boi. A emoção transbordou até nos que assistiam o espetáculo pela televisão ou internet.
A sinhazinha da fazenda Valentina Cid, descendente de uma das famílias mais tradicionais da história azul e branca, apresentou uma evolução marcada pela leveza e pela delicadeza, remetendo às antigas brincadeiras realizadas nos quintais e terreiros de Parintins. Sua apresentação simbolizou a continuidade da tradição entre as gerações.
No tradicional auto do boi, o amo do boi Caetano Medeiros conduziu os versos com irreverência, firmeza e forte interação com a torcida, reafirmando a figura do repentista como um dos grandes guardiões da oralidade amazônica.
Seus desafios reforçaram o caráter popular da brincadeira e aproximaram ainda mais a arena das antigas rodas de boi.
A porta-estandarte Marcela Marialva conduziu o pavilhão azul e branco em perfeita sintonia com o conjunto folclórico, enquanto a rainha do folclore Cleice Simas uniu elegância, vigor e forte presença cênica.
Já a cunhã-poranga Marciele Munduruku Albuquerque foi um show à parte, voltando a impressionar pela intensidade da dança, traduzindo em movimentos a força ancestral da mulher indígena amazônica.
Outro momento de grande impacto visual veio com o pajé Erick Beltrão, protagonista do ritual indígena.
Em uma evolução marcada pela imponência cênica, surgiu acompanhado de um gigantesco jaguar, símbolo da força espiritual dos povos originários.
Cercado pelas tribos coreografadas, o pajé conduziu um ritual que transformou a arena em uma celebração da ancestralidade amazônica, reafirmando que a resistência indígena continua viva na identidade cabocla retratada pelo Caprichoso.



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Marujada e galera sustentam o espetáculo
Nas arquibancadas, a galera confirmou por que é considerada um dos grandes patrimônios do Caprichoso.
Durante toda a apresentação, sustentou o espetáculo com canto coletivo, perfeita sincronia e emoção permanente, transformando cada toada em uma manifestação de pertencimento.
No tablado, a Marujada de Guerra mostrou mais uma vez por que é considerada o coração musical do boi.
Em diversos momentos, sua batida substituiu qualquer recurso tecnológico, devolvendo ao espetáculo o pulsar das antigas rodas de terreiro.
Conduzida por Patrick Araújo e pela orquestra de Neil Armstrong, os marujeiros mantiveram durante duas horas e meia uma cadência vigorosa que parecia acompanhar os próprios batimentos da nação azul e branca.
Mais do que executar música, a Marujada reafirmou seu papel como guardiã da tradição, preservando a sonoridade que atravessa gerações e continua sustentando o autêntico brincar de boi.
O boi voltou para casa
Quando as alegorias gigantes começaram a deixar a arena, restaram apenas aquilo que sempre sustentou o Caprichoso desde sua fundação: o boi negro de veludo, a Marujada de Guerra, o levantador de toadas, com o apresentador conduzindo a despedida e uma multidão vestida de azul cantando em uníssono.
Sem necessidade de efeitos grandiosos, o espetáculo terminou praticamente como começou há mais de um século nos terreiros de Parintins: gente cantando para seu boi.
A interpretação de “O meu amor é Caprichoso”, conduzida apenas pela voz de Patrick Araújo e pelo violão de Neil Armstrong, tornou-se o símbolo desse retorno às origens.
Já não havia julgamento, notas ou disputa. Havia uma nação inteira cantando sua própria história.
Na arena, o boi parecia brincar livremente entre seus brincantes, enquanto a Marujada mantinha apenas o pulsar dos tambores, suficiente para sustentar a emoção de milhares de pessoas.
Foi nesse instante que a proposta artística da terceira noite alcançou seu sentido mais profundo.
- • O Festival Folclórico de Parintins pode crescer, conquistar o mundo e incorporar tecnologias cada vez mais sofisticadas, mas continuará existindo porque preserva aquilo que lhe deu origem: um boi de pano, uma comunidade apaixonada e a cultura cabocla transmitida de geração em geração.
Mais do que encerrar sua participação no 59º festival, o Caprichoso concluiu com absoluta fidelidade a trilogia “O brinquedo que canta seu chão”.
O espetáculo mostrou que sua maior conquista não está apenas na grandiosidade das alegorias ou na perfeição técnica da arena, mas na capacidade de emocionar sem perder de vista suas raízes.
- • Ao devolver o boi ao terreiro, o Caprichoso reafirmou que sua verdadeira força continua sendo a mesma de sempre: um povo que canta, constrói, acredita e encontra, no simples ato de brincar de boi, a expressão mais genuína da identidade amazônica.

otos: Mauro Neto, Tiago Correa e Euzivaldo Queiroz/Secom
