Cientistas amazônicos estão apreensivos com ingerência de Trump na Venezuela
Marilene Corrêa e Henrique Pereira dizem que intervenção do governo Donald Trump preocupa a comunidade científica porque ela afeta parte do bioma amazônico.
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 05/02/2026 às 06:00 | Atualizado em: 05/02/2026 às 06:00
Dois dos mais expressivos cientistas da Amazônia, a socióloga Marilene Corrêa, e o ecólogo Henrique dos Santos Pereira, disseram ao BNC Amazonas que a intervenção do governo Donald Trump na Venezuela preocupa a comunidade científica porque ela afeta parte do bioma amazônico.
Marilene é membro da diretoria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e Pereira é presidente do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e coordenador da Rede Bioamazônia, instituição multilateral que articula a defesa de uma bioeconomia compatível com a preservação da biodiversidade.
“Toda intervenção é uma ameaça. Todo exercício de poder ditatorial é uma ameaça”, enfatizou Marilene.
“A situação da diplomacia ambiental e científica já era complicada [no governo Chaves-Maduro] e agora piorou, porque o país está em uma crise de governança e ingerência direta”, opinou Henrique.
A Venezuela agudizou a incerteza na política doméstica e internacional desde o dia 3 do mês passado, quando o presidente Nícolas Maduro foi sequestrado pelo governo dos Estados Unidos e levado para julgamento acusado de cometer “tráfico internacional de drogas” em tribunal de Nova Iorque.
Dede então, Donald Trump declara que a Venezuela está sob intervenção política e econômica, ainda que administrada pela vice-presidenta Delcy Rodriguz.
Nessa terça-feira, Trump se autodeterminou presidente interino da Venezuela, por considerá-la o 56º estado norte-americano.
Ontem, após encontro com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, ele voltou a ameaçá-lo de vir a ter o mesmo destino de Maduro, caso não se vergue às diretrizes de Whashington.
A Colômbia tem uma fronteira amazônica de 1.644,2 quilômetros com o Brasil.
Potência militar
Marilene Corrêa entende “que toda potência militar que venha nos acercar é uma ameaça”.
É uma ameaça porque, segundo ela, “temos também poder de troca, temos o que ser ofertado”. Ela lembra que a Venezuela faz parte da bacia sedimentar amazônica e, se parte dela está sob intervenção e Trump, a presença militar norte-americana na região ameaça a fronteira brasileira.
O mais preocupante, para ela, é que Brasil e Venezuela compartilham a região do rio Negro, a área milenar que abriga os povos indígenas mais antigos da América do Sul.
Lugar das fronteiras
Marilene Corrêa acentuou que “o lugar das fronteiras ainda não foi equacionado pela política internacional brasileira. Geralmente, segundo ela, “a gente se preocupa muito com as fronteiras do Cone Sul. Mas as fronteiras ao Sul do Norte do Brasil precisam ter mais investimentos, ser mais consolidadas. As populações tradicionais precisam estar mais protegidas”.
Ela explica que “isso depende de um conjunto de prioridades enquanto projeto nacional, para o qual ainda não temos correlação de força para realizá-lo”.
Mas diante de uma ameaça internacional, ela indica que é responsabilidade do Brasil esclarecer os diversos ângulos de temas críticos, como o dos minerais estratégicos e, ao mesmo tempo, o da autonomia que a nacionalidade brasileira precisa para assumir a vigilância cívica pela sociedade nacional.
A presença do estado deve se estabelecer, sustenta a cientista, em comunhão com a sociedade, porque Trump está levando o seu governo sem o consenso da sociedade norte-americana.
“Não é isso o que desejamos, pois passamos por uma ditadura e não a queremos novamente. Precisamos, entretanto, alinhar as forças das sociedades democráticas, com a finalidade promover uma interpretação da soberania da América Latina, na qual se inclui o Brasil”, afirmou Marilene Corrêa.
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Diplomacia ambiental
“Também no campo da diplomacia internacional ambiental, os ataques americanos fazem uma diferença muito grande. A oposição e a própria ausência dos Estados Unidos nos debates da agenda climática fazem muita diferença pelo tamanho da economia e pelo poder político que o País tem”, comentou Pereira.
Em relação ao sequestro do presidente Maduro, Pereira afirmou que esse ato é inacreditável sob quaisquer dos aspectos, um tanto absurdo quando analisados desde o multilateralismo até ao direito internacional
Sobre a ingerência dos recursos naturais da Venezuela, pelos EUA, Pereira espera que ela se não passe dos negócios petrolíferos. “É fato sim: a Venezuela é um dos países amazônicos. Essa relação direta com o bioma amazônico não está diretamente estabelecida, porque o petróleo também ocorre fora dele. Isso não tem uma relação direta com o tema integridade”, explicou o cientista.
Multilateralismo pan-amazônico
Pereira esclareceu as dificuldades políticas da Venezuela, com o seu governo reconhecido como pária pela maioria dos países, afastou a academia científica venezuelana dos grandes debates da agenda ambiental. Por isso, os organismos multilaterais não aceitaram a Venezuela no Instituto Bioamazonia.
“Então, essa situação é preocupante. Esse episódio [ingerência dos EUA na Venezuela] aguça o nosso sentimento em relação à segurança que cada um de nós tem a respeito da soberania dos nossos países. Aconteceu lá, pode acontecer também aqui, no Brasil, ou na Colômbia. Isso é inaceitável sob qualquer aspecto”, argumenta Pereira.
Ele salientou que a situação da política ambiental científica era complicada e agora está pior, porque a Venezuela está em desgovernança e sob ingerência externa e não se tem qualquer ideia do desfecho dessa crise, “afinal se trata de um ditador que pretende governar o mundo”.
“Ele quer invadir ou comprar a Groelândia, renomeou o Golfo do México para Golfo da América, invadiu a Venezuela e, agora, qual será o próximo passo?”, pergunta Pereira.
Para Pereira, se for a questão da política e do comércio do petróleo – “se isso parar por aí” – não dá para vislumbra de pronto uma ameaça direta ao bioma e aos povos amazônicos venezuelanos.
Mas uma provável reorganização da indústria petrolífera venezuelana sob a ótica norte-americana é preocupante, uma vez que a exploração de óleo fóssil pode atingir a região amazônica. “Aí, a gente vai ver o impacto que uma indústria como essa traz. Aí, virão os efeitos em cascata”, preveniu Pereira.
Povos autóctones
Se não há uma ameaça direta à fronteira brasileira, Pereira assinala que há uma preocupação indireta sobre os impactos da ingerência de Trump no território venezuelano, com repercussão nos ecossistemas regionais, aos quais se incluem os povos autóctones.
“Somos um país de fronteira muito próximos dessa realidade. Tem ainda questão da Guiana, país tem fronteiras amazônicas com a Venezuela e com o Brasil.
“Não sabemos qual será a posição da Guiana no futuro”, argumentou Pereira.
O que será feito com o Maduro?
Há outra situação que Pereira leva em conta: as palavras do secretário de Estado norte-americano, Marcus Rubio, que indicam que a ingerência sobre a Venezuela deve durar muito tempo.
“Na verdade, ele avalia que o governo Trump vai durar por toda a sua gestão, não cai. Mas pode ser que uma mudança de governo reverta por completo toda essa situação”, especulou Pereira.
Merece interrogação, se eles [os UEA] vão levar o Maduro, caso seja inocentado, de volta à Venezuela e pedir desculpas a sua família e ao povo venezuelano.
“Isso é tudo absurdo, que a mim parece que estamos assistindo a uma comédia de mal gosto”, asseverou Pereira.
Foto: reprodução
