Facções avançam em Parintins e desafiam presença do Estado

Operação do MP apreende celulares, drogas e armas e revela indícios de expansão criminosa no município.

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 11/06/2026 às 14:20 | Atualizado em: 11/06/2026 às 14:22

O avanço das facções criminosas em Parintins, segundo maior colégio eleitoral do Amazonas e principal polo urbano do baixo rio Amazonas, voltou ao centro das atenções após operação do Ministério Público do Amazonas (MP-AM) que apreendeu celulares, drogas, armas e documentos ligados à atividade criminosa neste dia 11 de junho.

Durante a ação realizada nesta quinta-feira, promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e da 1ª Promotoria de Justiça de Parintins cumpriram mandados judiciais e realizaram uma fiscalização extraordinária no presídio do município. Ao todo, foram apreendidos 19 aparelhos celulares, além de entorpecentes, armamentos e cadernos com anotações que podem auxiliar no mapeamento das estruturas criminosas em atividade na região.

As investigações apontam que parte das ordens para a prática de crimes estaria partindo de dentro do presídio, reforçando uma realidade observada em diversas cidades do interior amazonense: a manutenção do comando das facções mesmo com lideranças presas.

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Disputa por território

As diligências alcançaram comunidades da zona rural, como Vila Amazônia e Zé Açu, além de áreas urbanas consideradas estratégicas.

Segundo o MP-AM, essas localidades apresentam indícios de expansão da presença de organizações criminosas e tentativas de ocupação territorial para fortalecimento das atividades ilícitas.

A movimentação preocupa porque reproduz um fenômeno já identificado em outras regiões da Amazônia, onde facções passaram a disputar não apenas o tráfico de drogas, mas também o controle de comunidades, rotas logísticas e atividades econômicas ligadas aos rios.

Nos últimos anos, o Amazonas tornou-se uma das principais áreas de interesse das organizações criminosas por fazer fronteira com a Colômbia e o Peru, os dois maiores produtores mundiais de cocaína.

Investigações acompanhadas pelo BNC Amazonas têm mostrado que a disputa por corredores fluviais e terrestres transformou municípios do interior em pontos estratégicos para armazenamento, transporte e distribuição de drogas destinadas ao mercado nacional e internacional.

Parintins, pela posição geográfica no rio Amazonas, na divisa com o Pará, e pela intensa circulação de pessoas e mercadorias, passou a integrar esse mapa de interesse das facções.

Presença do Estado

A procuradora-geral de Justiça do Amazonas, Leda Mara Albuquerque, afirmou que o desafio atual vai além do combate ao tráfico de drogas e envolve impedir que organizações criminosas ocupem espaços onde o Estado se mostra fragilizado.

Segundo ela, as investigações indicam tentativas de cooptação de jovens e de utilização de populações vulneráveis como instrumento de expansão territorial das facções.

“O enfrentamento ao crime organizado, hoje, vai muito além do combate ao tráfico de drogas. Estamos atuando para impedir que essas organizações ocupem territórios, explorem pessoas vulneráveis e tentem assumir espaços que pertencem ao Estado. Não vamos permitir que o tráfico domine comunidades e utilize essas áreas para fortalecer sua atuação criminosa”.

Além da coleta de provas, o material apreendido deverá subsidiar novas medidas judiciais e aprofundar as investigações sobre a atuação das organizações criminosas no município.

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Interior sob pressão

A operação integra a estratégia nacional de combate ao crime organizado coordenada pelos ministérios públicos estaduais.

No Amazonas, porém, o foco em Parintins evidencia uma preocupação crescente das autoridades com a interiorização das facções.

Nos últimos anos, relatórios de segurança pública e operações policiais têm apontado o fortalecimento dessas organizações em municípios situados às margens dos grandes rios amazônicos, especialmente em áreas utilizadas como corredores para o narcotráfico internacional.

A avaliação dos investigadores é que impedir a consolidação desse domínio territorial tornou-se uma das principais frentes de atuação das forças de segurança e do Ministério Público no estado.

Coordenada pelo Gaeco, a operação contou com apoio das polícias Militar e Civil, da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) e de equipes especializadas com cães farejadores. As investigações prosseguem e novas medidas judiciais não estão descartadas.

Foto: Agência Brasil