Estúdio de som do Garantido chega 52 anos após primeira toada gravada
Boi Garantido inaugura estúdio digital próprio em Parintins para produzir álbuns e podcasts, 52 anos após sua primeira gravação fonográfica.
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 29/01/2026 às 15:38 | Atualizado em: 29/01/2026 às 15:38
Cinquenta e dois anos após gravar a sua primeira toada, “Chegou Boi Garantido” (Ambrósio/Chico da Silva), o boi-bumbá Garantido veio a instalar o seu próprio estúdio para produzir mídias sonoras (álbuns, EP – mini álbuns – podcast, streaming etc.).
O estúdio de som digital está localizado na Cidade Garantido, no quilombo da baixa da Xanda, e ocupa o prédio que abrigava os departamentos de pessoal e social.
Os espaços do prédio foram redistribuídos para receber equipamentos e instrumentos musicais com as medidas ajustadas para o posicionamento dos músicos e seus instrumentos.
A mesa de som digital possui um gravador com vinte interfaces de áudio/gravadores portáteis de produção.
Em razão da redução de custos e maximização de qualidade, a masterização do álbum deste ano ainda será realizada em Los Angeles, nos Estados Unidos.
“Embora estejamos no mundo digital, as melhores máquinas de masterização são analógicas, e elas estão em Los Angeles”, disse o músico Alder Oliveira, um dos produtores do álbum.
Os equipamentos do estúdio, em sua maioria, são alugados da empresa do engenheiro de som Bill R., com sede em São Paulo.
Bill R. é um profissional destacado na área musical, inclusive, pela conquista de prêmio Grammy. Ele já atuou em outros álbuns do Garantido.
A proposta da atual diretoria da agremiação é manter o estúdio funcionando o ano todo, para atender, também, a demanda externa de gravações dos músicos parintinenses e de outras cidades.
Toada
A toada é o estilo musical padrão do Festival Folclórico de Parintins, protagonizado pelos bois-bumbás Caprichoso e Garantido, e realizado na última semana de junho, desde 1965.
O ritmo foi desenvolvido a partir da toada raiz (composição simples, binária ou quaternária) por poetas e músicos parintinenses desde a década de 1980.
É da música que os bois-bumbás partem para a elaboração dos seus espetáculos.
Elas são compostas conforme o tema anual dos bois-bumbás e inspiram a elaboração das danças, coreografias, fantasias, alegorias e animam as galeras.
Em nível nacional, a toada parintinense é conhecida, principalmente, pelas toadas “Tic, Tic, Tac” (Braulino Lima), na voz de Zezinho Corrêa (Grupo Carrapicho) e “Vermelho” (Chico da Silva), na voz de Fafá de Belém.
Plataformas
O presidente da comissão de artes do bumbá, Telo Pinto, confirmou que as toadas oficiais deste ano começam a circular em 20 de março, por das plataformas musicais digitais Spotify, Apple Music, Amazon Music, Deezer e You Tube Music.
“Até domingo terminaremos as gravações da percussão, logo em seguida virá a batucada”.
Telo disse que o boi já definiu as suas estratégias para colocar na arena um espetáculo à altura da sua história e da expectativa dos seus torcedores.
“A música reflete a qualidade do espetáculo. E isso já temos em mãos”, disse, referindo-se a importância do estúdio para o aprimoramento do espetáculo como um todo.
História
A primeira gravação fonográfica de toadas do boi-bumbá Garantido aconteceu em 1974, por iniciativa dos cantores e compositores parintinenses Chico da Silva e Fred Góes.
Trata-se de “Chegou boi Garantido” (Ambrósio/Chico da Silva), impressa em DC (disco compacto), com duas músicas, uma de cada lado.
O compacto foi lançado pelo selo paulista Crazy, com a produção de Vicente Venâncio da Conceição, que se tornou parceiro de Chico da Silva em vários sambas de sucesso, assinando apenas como Venâncio.
Aliás, Chico registrou de memória uma frase profética de Venâncio após o disco ficar pronto:
“Olha, eu não sei se vai vender isso aí, mas isso vai ser uma grande força para o boi de vocês, lá em Parintins”.
Quando foi contratado pela Polygram, em 1977, Chico da Silva revela que sempre tentava inserir letras de toadas em ritmo de samba nos seus LP, mas encontrava resistência dos produtores.
Somente a partir do terceiro LP, com o cacife de sambista consagrado pela crítica e público, começou a gravar toadas dos bois-bumbás parintinense.
A primeira dessa série em LP foi “Campina” (Ambrósio).

As novas tecnologias afetaram, também, a indústria cultural e mudaram as suas relações com os fazedores de cultura e com o mercado.
Com a Internet, a partir de 1995, o espaço entre produtos e mercado se encurta e se reinventa a todo momento. Hoje é possível, por exemplo, uma agremiação de boi-bumbá, localizada na Amazônia, possuir o seu próprio estúdio para produzir, divulgar e fazer circular, em nível mundial, seus produtos.
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Fotos: Márcio Costa/especial para o BNC Amazonas
