Leitores celebram Astrid Cabral no lançamento de ‘O sangue das pitangas’
Astrid Cabral é a primeira poeta a compor o Clube da Madrugada, movimento cultural amazonense
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 07/07/2026 às 05:48 | Atualizado em: 07/07/2026 às 08:57
Astrid Cabral, 89 anos, poeta amazonense que mora no Rio de Janeiro, foi celebrada por leitores e estudiosos da literatura, durante o lançamento do seu livro O sangue das pitangas (Valer), nesse domingo, no Café com poesia, evento realizado pela Livraria Valer Teatro.
A poeta não pôde vir a Manaus porque está acamada, em razão da idade avançada e foi representada pelos seus filhos Isabela, Raul e Mariana.



O sangue das pitangas é o segundo livro de prosa poética (contos) da escritora, que vem ao público 63 anos depois do primeiro, Alameda, publicado em 1963.
Os demais são: Ponto de cruz (1979)
Torna-viagem (1981)
Zé Pirulito (1982)
Lição de Alice(1986)
Visgo da terra (1986)
Rês desgarrada (1994)
De déu em déu (1998)
Intramuros (1998)
Rasos d’água (2003)
Jaula (2006)
Ante-sala (2007)
Antologia Pessoal (2008)
50 Poemas escolhidos pelo autor (2008)
Les doigts dans l’eau (2008)
Cage (2008)
Palavra na berlinda (2011)
Infância em franjas (2014)
Íntima fuligem: caverna e clareira (2017)
Coração à solta (2021).
Astrid Cabral é a primeira poeta a compor o Clube da Madrugada, movimento cultural amazonense, que repercutiu a proposta estética do modernismo no Amazonas, a partir de 1954.
Estudiosas das suas obras e críticos literários, a incluem no panteão brasileiro da poesia, uma vez que ela traduz, com simplicidade, elegância e densidade, a condição humana a partir da sua própria vivência.
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Outros livros
Mauro revelou que O sangue das pitangas ainda foi organizado pela própria autora, em 2020, e revisado por ele, porque ela não quis mais tocar nos textos.
Ele informa, todavia, que existem outros textos inéditos, guardados em pastas, para ser transformados em livros. “Ela organizava os seus textos em pastas e depois os selecionava para edição”, disse Raul.
Ela escrevia sempre
Isabela disse que sua mãe passou o tempo todo escrevendo: no metrô ou na cozinha.
“Era uma pessoa que aproveitava todo tempo disponível para ler e escrever, pois, além de cuidar da família, era professora universitária e funcionária do Itamarati”, acentuou.
Para ela, a edição e lançamento de O sangue das pitangas em Manaus deixa a família e os leitores de Astrid Cabral “muito felizes, afinal aqui é a terra dela.
“Ela veio várias vezes aqui e falava com muito carinho sobre a Valer. Então, para a gente é um privilégio que este último livro organizado por ela seja publicado pela Valer. A gente fica muito feliz por ela e com ela”, disse Isabela.
O editor da Valer, jornalista Isaac Maciel, contou que ficou encantado o primeiro livro de Astrid Cabral que lhe chegou as mãos: Alameda.
“Fiquei encantado com a maneira que ela escolheu para dar vida às suas personagens. Ela faz do jardim o seu arsenal de possibilidades, nomeando plantas e animais com personagens da sua poesia”, comentou o editor.
Presença feminina
Os professores doutores em literatura Carlos Guedelha e Frederico Grüger destacaram que que a obra de Astrid Cabral expressa a condição feminina por meio da poesia.
“É um olhar marcado pela revolta, pela angústia e pela insubmissão. A menina que escreve Visgo da terra é a mesma insubmissa que olha para as relações sociais e para a mulher, ainda que submissa, talvez por uma questão de sobrevivência, mas que cala dentro da pessoa a revolta que está na poesia”, interpreta Guedelha.
Ele acrescenta: “Astrid não escreve para dourar a realidade, escreve para contestá-la, para nos mostrar que o mundo está desconsertado. Esse olhar é revisionista. Isso é único. Muitos poetas fazem isso, mas ninguém faz com a competência, estética e qualidade que a Astrid faz”.
Para o professor, a poeta consegue perceber o lugar da expressão feminina no mundo. Isso ocorre, segundo ele, por meio da experiência feminina, da vida da mulher nas suas mais variadas fases: na infância, na idade adulta e na iminência da morte.
“Ante-sala é exatamente essa metáfora, a antessala da morte. Ela fotografa as angústias e, assim, nos representa como homens, porque, as angústias são compartilhadas por todos os seres humanos”, assinalou.
Grüger acrescentou que O sangue das pitangas representa o fechamento de tudo “que ela representou.
“Ela vem coroar as suas experiências literárias. Uma literatura essencialmente feminina, porque não é de ação ou de violência, é uma literatura que nos leva a pensar”, acentuou.
Vida e obra
Recortes da vida e obra de Astride Cabral foram apresentadas pela sua prima Leyla Leong, escritora.
Ela afirmou que, a partir da década de 1980, estreitou sua amizade com Astrid. “Ela me ligava todos os domingos e passávamos horas conversando, tanto sobre as histórias da família quanto sobre os livros dela. Essas conversas se tornaram habituais”, revelou Leyla Leong.
Na década de 1990, com a chegada do computador pessoal e da internet, a troca de mensagens elas passou a se realizar por e-mails.
“Ela me mandava mensagens com novos textos dela, frases, coisas que tinha acontecido com ela e, pasmem, entre os textos enviados, estava o conto O sangue das pitangas. Ela me surpreendeu com a seguinte pergunta: O que tu estás achando? Imagina!”, afirmou a escritora.
Poemas
O ator e escritor Dori Carvalho recitou poemas da autora homenageada e destacou que a Astrid Cabral.
Trecho
“[…] Foi quando comecei a encontrar os pés de pitanga e entusiasmar-me com o brilho vermelho das frutinhas. Fui enchendo os bolsos com elas, ao mesmo tem em que as mordia e chupava com deleite. Mamãe chegou perto e, segurando-me o braço, falou: Você não pode comer essas pitangas. – Elas estavam tão doces que não obedeci e continuei. Que mal havia nelas. A mãe disse: Estão todas envenenadas, o sangue dos mortos corre nelas. Mas fiquei pensando que eu comia a comidinha sagrada que alimentava os mortos. Um dia eu estaria ali também, sob a terra, e não disputaria com as crianças que eu conhecia a gostosura delas. Se essas pitangas traziam a seiva dos mortos seriam melhores que as do mercado. Era uma maneira de estar bem pertinho dos que já haviam partido, e isso me consolou e me deu um estranho contentamento.”
Fotos: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas
