Por Neuton Corrêa, da redação

 

Numa trincheira pretensiosamente instalada no coração da Amazônia há mais de meio século, o Amazonas há muito resiste a ofensivas que tentam minar as forças da Zona Franca de Manaus (ZFM), o modelo de desenvolvimento regional mais ambiental e exitoso do interior do país.

Mas, agora, chegou a hora da verdade. O futuro desse projeto é o pretérito.

Não se trata somente do cenário atual desenhado pelo futuro governo Bolsonaro, que propõe o fim acentuado das tarifas que protegem a indústria nacional. Não!

A olhos vistos, já se vê o que está acontecendo. O Distrito Industrial, sede do Polo Industrial da ZFM, que produz 80% da riqueza que sustenta a economia do Estado, é prova disso.

Fábricas que antes abrigavam a frenética atividade dos operários estão fechadas, com placas de ofertas venda ou aluguel de prédios e foram invadidas pelo mato amazônico, como a vegetação fez com outros projetos regionais fracassados na região.

Imagem comum hoje nas fábricas fechadas

A Zona Franca de Manaus gradualmente perdeu suas forças e, agora, não está mais preparada para a batalha final.

As munições que a defendiam estão acabando; as principais vozes que a protegiam foram abatidas eleitoralmente; e o discurso envelheceu com o tempo sem capacidade de torná-lo necessário e permanentemente atual.

A vigência do modelo, que se encerraria em 2023, no calor das eleições de 2014, após pressão da classe política local e da sociedade, foi prorrogada por mais 50 anos.

Mas foi ouro de tolo, a euforia do trabalhador e do capital se esvaiu como areia no vento.

Fabricante de relógio deixou o Amazonas

Os quase 130 mil trabalhadores que eram empregados nas fábricas do PIM encolheram-se à casa dos 80 mil.

Diversificação dos produtos nas linhas de produção, anúncios de novas empresas chegando, Codam (Conselho de Desenvolvimento do Amazonas) e (CAS) Conselho de Administração da Suframa aprovando projetos com altos investimentos e geração de emprego aos milhares tornaram-se utopias.

A burocracia ministerial e interministerial, controladas pelos algozes da ZFM, engavetaram os projetos.

O entusiasmo despertou a inveja, que se aliou a erros, tiros nos pés de gestões públicas desastrosas e alguns no Congresso Nacional que fizeram com que a realidade e as perspectivas de futuro mudassem radicalmente.

Os três mais importantes polos de produção industrial do Amazonas estão cambaleantes.

O de duas rodas vai completar quase uma década de revezes em seu faturamento, que não recuperou seus melhores números.

O polo de eletroeletrônico enfrenta os importados e está diante de seu maior desafio, o de encarar a abertura total do mercado proposta pelo ultraliberalismo do governo eleito.

O de concentrados já foi ferido este ano pelo governo Michel Temer e pode deixar o Amazonas a qualquer momento, porque o capital não tem cor nem bandeira.

A quantidade de empresas novas que se instalaram no PIM vem caindo de forma abrupta e não se vê mais a diversificação fabril de produtos considerados da quarta revolução industrial e inovadores (exemplos: drones, impressoras 3D, robôs domésticos etc).

O apoio sempre recebido do poder público não é mais o mesmo com a Suframa em uma guerra interna pelo poder da autarquia que tira do foco o seu papel de fomentador da ZFM.

Retrato simboliza o atual estado da Suframa

E, como se não fosse pouco, a Seplan ainda sobrevive, debilitada, após a tentativa recente de acabar e suas atribuições serem incorporadas à Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz).

Em breve a OMC deve publicar seu relatório que pode condenar o Brasil quanto à concessão de incentivos fiscais como o a Lei de Informática.

Se isso acontecer, temos uma oportunidade de captar empresas para o PIM posto que realmente somente a ZFM terá a segurança jurídica garantida pela Constituição Federal para a a concessão de incentivos e sem questionamentos internacionais.

É possível sonhar ainda com a Zona Franca de Manaus? Sim. Entre a vontade liberal do futuro presidente e o modelo ainda existe o parlamento, a sociedade, a realidade. Mas já é hora, diante de tudo o que aconteceu e continua acontecendo, de o Amazonas olhar “prafrentemente” cair na real, antes que o caos aconteça.

Ainda há tempo.

 

Fotos: BNC AMAZONAS