Faria reúne mercado e caciques bolsonaristas sob sombra de escândalos
Evento do Lide sobre tarifaço de Trump contou com lideranças políticas envolvidas em questionamentos e controvérsias.
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 11/06/2026 às 09:08 | Atualizado em: 11/06/2026 às 09:09
O seminário econômico promovido pelo Lide, em São Paulo, nesta semana, para discutir os impactos da nova sobretaxa de 25% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, acabou extrapolando o debate comercial e transformou-se em uma vitrine das articulações entre o mercado financeiro, a direita brasileira e atores da disputa eleitoral.
O encontro reuniu empresários, executivos e lideranças políticas bolsonaristas em um momento delicado para o campo oposicionista.
Entre os participantes e articuladores estavam dirigentes partidários e figuras centrais da federação União Progressista, que atualmente ocupam espaço de destaque no noticiário político nacional por causa de investigações, denúncias e controvérsias.
A presença desses personagens reforçou a percepção de que parte significativa do empresariado já acompanha de perto a construção de uma alternativa eleitoral à esquerda, mesmo diante dos desgastes que atingem setores da oposição.
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Mercado cobra pragmatismo
A principal preocupação dos empresários foi o impacto da decisão do presidente americano Donald Trump de elevar as tarifas sobre produtos brasileiros.
O grupo defendeu uma saída diplomática para a crise e divulgou posicionamento favorável a uma negociação conduzida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, com apoio de representantes do setor privado.
A avaliação predominante foi de que a escalada comercial exige uma atuação técnica e pragmática, distante da polarização ideológica que tem marcado as relações entre Brasília e Washington.
Nesse contexto, o ex-governador de São Paulo, João Dória, fundador do Lide, alertou para os prejuízos econômicos provocados pela disputa política em torno do tarifaço.
Para ele, a medida adotada por Trump não produz vencedores e pode afetar tanto o governo Lula quanto os projetos eleitorais da oposição.
Direita em teste
Se o discurso empresarial buscou moderação, o mesmo não ocorreu entre alguns representantes da direita presentes ao evento.
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, aproveitou o encontro para defender uma maior aproximação do Brasil com os Estados Unidos e criticar o que classificou como dependência excessiva da China.
A fala foi interpretada por participantes como mais um movimento de posicionamento de Zema no tabuleiro presidencial, onde disputa espaço com o senador Flávio Bolsonaro e outros nomes do campo conservador.
Nos bastidores, empresários também demonstraram interesse em saber até que ponto a proximidade da família Bolsonaro com Trump pode se converter em resultados concretos para os negócios brasileiros.
A cobrança revela uma mudança de postura do mercado. Mais do que alinhamento ideológico, o setor busca avaliar a capacidade de entrega dos candidatos da direita diante de crises econômicas e comerciais que afetam diretamente a atividade produtiva.
União Progressista e o peso dos escândalos
O encontro também ocorreu em meio às articulações da União Progressista, federação formada por União Brasil e PP, que pretende ocupar posição estratégica na disputa presidencial.
Entre seus principais dirigentes estão Ciro Nogueira e Antônio Rueda, lideranças que exercem forte influência sobre o bloco conservador e sobre a definição de alianças para 2026.
A participação de integrantes desse núcleo político em um ambiente frequentado pela Faria Lima reforça a aproximação entre setores do mercado e o projeto de reorganização da direita nacional.
Ao mesmo tempo, evidencia a disposição do empresariado de manter interlocução com lideranças que convivem com desgastes políticos e questionamentos públicos, desde que apresentem capacidade de construir uma alternativa competitiva para a sucessão presidencial.
No fim, a discussão sobre as tarifas americanas serviu como pano de fundo para uma questão maior: quem terá condições de representar os interesses do mercado e liderar o campo conservador na corrida ao Palácio do Planalto em 2026.
Foto: reprodução/Leco Viana / TheNews2
